Feliz dia dazamiga e dozamigo!

claclamigues

Texto de Maria Karina

Às vezes a gente deita na cama e fica pensando em como tem sorte de conhecer uma galera incrível. Agradece a todas as entidades divinas, desde os deuses do Olimpo até os pokémons.

Tem também aquele povo que a gente morre de vontade de ser amigo de infância. Sabe aquelas pessoas que você pensa “maaaano, que lindaaaaa, quero andar com ela no recreio” e ai sai curtindo todas as fotos, postagens e vira aquela stalker maluca? E quando ela curte ou compartilha alguma postagem sua e você quase cai da cadeira e fica gritando É PENTAAAAAAA  É PENTAAAAAAAA. Então, acontece.

Depois de passada a euforia você fica lá conversando com suas lantejoulas para maneirar um pouco a dose, tentar se comportar senão vai parecer uma psicopata. Pensa nas suas autoras favoritas e conclui “elas nunca seriam minhas amigas”, coloca a mão no coração e começa BATATINHA QUANDO NASCE (parei).

A questão é que você não imagina cada história divertida de escritoras(es) quando gostam de alguém pra ser amigue de infância. Até Clarice Lispector, que sustentava aquele olhar de quem estava só de férias no mundo e por isso mesmo não era obrigada a nada, já deixou a timidez em casa e foi com tudo pra cima da artista Djanira da Motta. Repara nesse trecho de uma entrevista feita pela nossa deusa das palavras e diz se não tá na cara que Clarice seria stalker fácil da Djanira no facebook:

Como não amar Djanira, mesmo sem conhecê-la pessoalmente? Eu já amava o seu trabalho, e quanto – e quanto. Mas quando se abriu a porta e eu a vi – parei e disse:

– Espere um pouco, quero ver você.

E vi – eu vi mesmo – que ela ia ser minha amiga. Ela tem qualquer coisa nos olhos que dá a ideia de que o mistério é simples. Não estranhou o fato de eu ficar olhando para ela, até eu dizer:

– Pronto, agora já conheço você e posso entrar.

Djanira tem a bondade no sorriso e no resto, mas não uma bondade morna. Nem é uma bondade agressiva. Djanira tem em si o que ela dá no seu trabalho. É pouco isso? Nunca, isso é tudo. Isso é a veracidade do ser humano dignificado pela simplicidade profunda que existe em trabalhar.

Sentamo-nos, eu sem tirar os olhos do rosto dela, ela me examinando com bondade, sem me estranhar nem um pouco.

Não se deve escrever Djanira e sim DJANIRA.

– Djanira, você é uma criatura fechada. E eu também. Como vamos fazer? O jeito é falar a verdade. A verdade é mais simples que a mentira.

Ela me olhou profundamente. E eu continuei, com esse tipo de timidez que sempre foi a minha:

– Eu quero saber tudo a seu respeito. E cabe a você selecionar o seu tudo, pois não quero invadir sua alma. Quero saber por que você pinta e quero saber por que as pessoas pintam. Quero saber que é que você faria em matéria de arte se não fosse pintura. Quero saber como é que você foi andando a ponto de se chamar Djanira. E quero a verdade, tanto quanto você possa dar sem ferir-se a si própria. Se você quiser me enganar, me engane, pois não quero que nenhuma pergunta minha faça você sofrer. Se você saber cozinhar, diga, porque tudo o que vier de você eu quero.

– A gente pinta como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que pinta.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Entrevistas. Rio de Janeiro. Rocco, 2007.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

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