Mês: setembro 2016

João Antônio: A boa literatura

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Texto de Danilo Lago

Sempre que vejo uma tampinha moscando no asfalto, na mudeza da noite, me lembro de João Antônio.

Daí uma tristeza leve, beliscando a alma, se aflora. Embaralha a memória, botando do meu lado, aqui dentro, sob a mesma luz mercúrio, certo aluado, personagem do conto Afinação da Arte de Chutar Tampinhas.

Sou um cara que trabalha muito mal. Assobia sambas do Noel com alguma bossa. Agora, minha especialidade, meu gosto, meu jeito mesmo, é chutar tampinhas da rua. Não conheço chutador mais fino.

E tenho escutado especialistas falando sobre o que é boa literatura, conceitos, teorias, teoremas, a porra toda. Nada contra. Entra por um ouvido, sai por outro. Não sou bom aluno. Às vezes fica uma cerinha de canto, coçando, roçando. Logo meto o cotonete.

Boa literatura, boa literatura mesmo, boa literatura pra mim, coisa de pouca significância, é caminhar numa sexta-feira machucada sobre um asfalto garoado e não saber se estou num conto que li recentemente ou se o conto está em mim.

A bem da verdade, pois sou um homem de verdades fracassadas, foda-se. Só queria ser o melhor chutador de tampinhas daquela rua, daquela tristeza, daquele desjeito com a vida. Sentir algum rastro de beleza escondida.

Só o barulho da borracha no chute e depois o barulho da tampinha aterrissando. E um depois do outro, os dois se procuram, os dois se encontram, se juntam os dois, se prendem, se integram, amorosamente. É preciso sentir a beleza de uma tampinha na noite, estirada na calçada. Sem o quê, impossível entender meu trabalho.

Fonte: Antônio, João. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

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Realidade virtual é mato

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Texto de Danilo Malabrito

Confesso que desde a primeira vez que ouvi falar em “drones”, já aumentou bastante o meu medo do futuro. Talvez porque os conheci justamente em uma notícia que dizia serem usados em operações militares. Para matar pessoas. Confesso que agora já não sei nem o que é mais doído, a atrocidade em si ou a frieza ao escrever isso num texto.

É aquela coisa. A tecnologia é criada pro bem e o homem dá um jeito de pecá-la, ou é criada já pro pecado, e o homem acaba dando um jeito de usá-la pro bem? O ser humano é mau por natureza então corrompe a sociedade, ou nasce bom e é corrompido por ela? O biscoito é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Dúvidas que a gente leva pro túmulo.

Mas este texto não é sobre drones nem sobre desgraças nem sobre pecados. Hoje em dia tá na moda a VR: “Virtual Reality”. Realidade virtual, pra nós que usamos chinelos. A busca pela imitação da realidade, pensa só. Sei que os usos dessa inovação são inúmeros, maiores no entretenimento. Imitar a realidade pra se sentir mais vivo… Os dilemas da vida, né.

Claro, eu sei que é o andamento natural da tecnologia. Eu sei que é inevitável essas coisas. O progresso é um fato, tipo os drones. E as dúvidas. Não, não é que eu ache que os óculos de realidade virtual, por exemplo, vão ser usados por militares para matar pessoas. Se bem que sei lá também, a cada inovação, falta menos quilômetros pra chegar em White Bear (se você ainda não viu “Black Mirror”, para tudo e começa já!). Mas eu disse que o texto não era sobre pecados.

Mas e o Saramago? O Saramago tá aqui porque é autoridade no assunto desse texto. Esses dias tava lendo um livro de entrevistas com ele e sua esposa, a Pilar. Daí que um trecho lá me fez ficar pensando como é louco isso que a gente tem de querer imitar tudo, e desvendar tudo, e como isso é quase sempre de um jeito mais mecanizado, mais morto.  A gente quer entender o mundo às vezes de uma forma violenta com nossa humanidade. Tô falando do apagamento dos sonhos. Juro que não tenho nada contra o avanço tecnológico, é lógico. É só que quando penso nos rumos que a gente pode tomar…

No “Eu, Robô” (o livro, lá de 1950), tem uma frase assim: “De agora em diante, todos os conflitos humanos são evitáveis. Apenas as máquinas são inevitáveis”.

Mas o quanto a gente tem que se deletar pra abrir espaço pra máquina? A resposta é que.

Saramago. Tem um trecho da entrevista em que ele faz uma senhora revelação. O mestre em realidade virtual com as distopias de seus livros diz que essa tecnologia já existe há milênios, acredite ou não.

Com todo respeito às verdades que os homens procuram pra amaciar os pecados que cultivam, meu sonho favorito é um que eu saía gritando na rua “parem de assassinar mistérios!!!”. E eu nem sabia mais se acordava.

Costumo dizer que, depois de Deus, sonhar é o maior mistério que não precisa de resposta.

O sonho é uma espécie de realidade virtual. A realidade virtual não foi inventada ontem, o homem das cavernas já sabia o que era a realidade virtual… porque sonhava.

Portanto não me venham cá com histórias… Ai! a realidade virtual! Ui!… Isso é tão velho como o mundo.

Estamos a viver no sonho coisas como se elas existissem – estão dentro da nossa cabeça simplesmente. É como se viajássemos para dentro de nossa cabeça e vivêssemos aquilo que está lá.

Antes, não lhe podíamos chamar realidade virtual, porque o conceito não existia. Chamávamos-lhe apenas sonho.

E a verdade é que nós dormimos mas o cérebro não dorme. Portanto dos dados da experiência, da consciência e do que pode recordar, o cérebro organiza histórias.

O cérebro não dorme, aliás, nada dorme. O coração tampouco dorme, o sangue flui. Todas essas células, tudo isso, a bicharada que está dentro de nós não para.

O sangue tem de chegar ao cérebro, a toda a parte, e lá tem os seus caminhos, as suas comportas, os seus diques, os seus canais de comunicação. É assim, pá…

FONTE: MENDES, Miguel Gonçalvez. José e Pilar: conversas inéditas. São Paulo, Cia das Letras, 2012, p. 21.


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas. Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Pablo Neruda: I Love Batata Frita

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Texto de Danilo Lago

Confesso e confesso e confesso.

Foi mais forte do que eu. Sempre é. Sou culpado. Ainda mais que elas estavam ali, no cantinho da mesa. Fresquinhas, sequinhas, indefesas. E com alho.

A saborosa simplicidade da terra moscando na minha frente. O perfume excitante, a textura crocante, o bronzeado da pele. E sal pra equilibrar o caos do paladar.

Dizem que são francesas, belgas. São acompanhamentos, acompanhadas. Um simples vegetal, produto nobre. Se come com talher, com os dedos. Tanto faz. Nada disso importa. Pra mim, elas são brasileiras. E reticências. Banquete das ruas.

Mas a carne é farsa. Ainda sou culpado. Não aguentei. Nunca aguento. Acho que nunca vou aguentar. Sem arrependimentos. Lombriga é mato, moscou lambeu o prato.

A minha irmã já tinha avisado, não come, heim, esse restinho é meu, cê já comeu quase tudo, mó zoião.

Concordei com ela. Balancei a cabeça, fingi não fazer questão. Continuei mastigando o meu filé de frango, grelhado, com orégano.

Ela acreditou, mastigava como se o mundo fosse uma canção do Marcelo Jeneci. E se esqueceu de si.

Mirei bem o garfo, dei um tiro certeiro e arrastei o resto das batatinhas pra minha boca. Uma delícia. Confesso. Ô coisa gostosa. Confesso. Queria mais. Confesso. Muito mais.

Ela ficou brava. Não demorou muito, deixou pra lá. Só mandou eu me ferrar, seu fominha do caramba, zóião, parece que passa fome, qué isso, pelo amor.

Lembrei disso por causa de um poeminha do Pablo Neruda, no livro Navegações e Regressos. Pelo jeito, ele também era do tipo que disputava as últimas batatinhas da mesa.

ODE ÀS BATATAS FRITAS

Crepita

no azeite

fervendo

a alegria

do mundo:

as batatas

fritas

entram

na frigideira

como nevadas

plumas

de cisne matutino

e saem

semidouradas pelo crepitante

âmbar das olivas.

O alho

lhes acrescenta

sua terrena fragrância,

a pimenta,

pólen que atravessou os recifes,

e

revestidas

de novo

com traje de marfim, enchem o prato

com a repetição de sua abundância

e sua saborosa simplicidade da terra.

Fonte: Neruda, Pablo. Navegações e regressos. São Paulo: Mediafashion, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

Vocês me desculpem, não vou falar de flores

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Texto de Maria Karina

Não consigo lembrar a primeira vez que quis salvar o mundo, mas lembro muito bem quando sussurraram pra mim que eu tenho apenas duas mãos. Não que isso tenha ajudado. Aprendi que às vezes versar sentimentos é como um balanço na rede.

Esses dias tenho ensaiado possibilidades de apresentação para uma aula que darei ainda esse semestre. Pois é, tem gente que usa o banheiro pra ensaiar o canto e outras a atuação, eu uso pra ensaiar ser professora. A minha maior preocupação é ser pouca. E eu sou. Em todo lugar os camaradas já disseram que há uma guerra, que é necessário levar fogo e alimento. E vocês sabem como é grande o mundo.

Dói, porque me encarreguei de limpar o brilho. A gente não pode obrigar a importância do opaco, mas como ele é preciso. Mais que viver ou navegar. Depois que a gente desengana o sucesso é bobagem, a gente nem liga em andar nu e prefere depender de carona. Será que se eu levar o meme do “falta amor mas também falta interpretação de texto”, ajuda? Calma, não estou jogando na cara, isso aqui está uma bagunça e ninguém tem obrigação de entender. Mas falta, né? Ô se falta. Imagina todo mundo percebendo as farsas que nos golpeiam da televisão? Só sei que a estupidez não tem mesmo nada de engraçada.

Como pesam esses 2016 anos. Ando sendo orientada para o presente, mas a gente anda só se afastando dele. E eu também não cantarei o mundo futuro. Por que a gente não tem a mania das mãos dadas, heim? Vocês me desculpem, mas meu coração está parando de crescer. Não sei se posso criar vida para essas mulheres e homens presentes. Pode ser que tudo resulte Macabéa, com a diferença que somos malditos e sabemos que somos.

Apesar de também iniciada, não tenho conseguido respirar dentro das palavras que Fernando Sabino escreveu em uma das muitas cartas trocadas entre ele e Clarice Lispector, mas é questão de vida, ou isso ou me afundo:

[…] posso perceber uma coisa muito mais importante do conto: que você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito: o que é preciso é sofrer bem: é uma diferença bem importante, para a qual o Mário sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compreensão, mas um reflexo.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro. Rocco, 2002.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com