Cronistas

Destruam os castelos

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Texto de Maria Karina

Alunas e alunos, nos meus textos não cabem seus elogios. Saibam, porém, que todos eles mantiveram meu pavio respirando. Na vida, nem todas as promessas podem ser cumpridas. Não vou me desculpar, nem por isso nem pela minha gramática. Se eu puder ensinar alguma coisa, que seja: para construir um castelo é preciso usar muito, muito espaço alheio, então, prefiram ocas. Busquem abrigo no pedaço do corpo que diz que nosso bem estar se manifesta quando temos tudo aquilo que não é do outro. Não há luxo maior.

Apesar de parecer, este texto não tem a intenção de ser uma lição de vida, de moral, até porque estou me encontrando, ou me perdendo, o tempo todo. Talvez eu tenha experimentado um bocado a mais de dores, mas ainda não aprendi a levantar todas as vezes feito um cavalo novo.

Para dar alguma substância a esse monte de palavras metade cheias, metade vazias, ofereço a carta da jovem Clarice. Numa data não muito distante dos fogos, ela mostra que não adianta inventar nascimento, porque as rasteiras não escolhem idade. Pode parecer clichê, pode parecer autoajuda, mas se tem alguma coisa certa na vida é dizer que nenhum peito esburacado consegue fazer respirar fariseus. Não digo que não seja necessário ser rude consigo mesmo, só que é preciso saber que não é à toa que a cor da sorte cheira euro-dólar com pitadas de real. Cuidem bem de si mesmos, mas também cuidem a cor que vão vestir na virada.

[A Tania Kaufmann]

Berna, 6 janeiro 1948

Minha florzinha,

recebi sua carta desse estranho Bucsky, datada de 30 de dezembro. Como fiquei contente, minha irmãzinha, com certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há muita coisa viva em mim. Mas não, minha querida! Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você. Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo. Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos levar de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? assim fiquei eu…, em que pese a dura comparação… Para me adatar (sic) ao que era inadatável (sic), para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus aguilhões – cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que nos leve de volta, só a ideia de ver você e de retomar um pouco minha vida – que não era maravilhosa mas era uma vida – eu me transforme inteiramente. Mariazinha, mulher de Milton, um dia desses encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que está irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lassidão de uma mulher de cinquenta anos. Tudo isso você não vai nem sentir, queira Deus. Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então… Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – esse é o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece um moral imoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber – pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade da alma. Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer o que você deseja – seja sair dos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras – porque como poderíamos fazer bem uma e outra sem esse mínimo de sinceridade?

Que o ano novo lhe traga todas as felicidades, minha querida. Receba um abraço de muita saudade, de enorme saudade da sua irmã

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Fonte: LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro. Rocco, 2002


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

João Antônio: A boa literatura

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Texto de Danilo Lago

Sempre que vejo uma tampinha moscando no asfalto, na mudeza da noite, me lembro de João Antônio.

Daí uma tristeza leve, beliscando a alma, se aflora. Embaralha a memória, botando do meu lado, aqui dentro, sob a mesma luz mercúrio, certo aluado, personagem do conto Afinação da Arte de Chutar Tampinhas.

Sou um cara que trabalha muito mal. Assobia sambas do Noel com alguma bossa. Agora, minha especialidade, meu gosto, meu jeito mesmo, é chutar tampinhas da rua. Não conheço chutador mais fino.

E tenho escutado especialistas falando sobre o que é boa literatura, conceitos, teorias, teoremas, a porra toda. Nada contra. Entra por um ouvido, sai por outro. Não sou bom aluno. Às vezes fica uma cerinha de canto, coçando, roçando. Logo meto o cotonete.

Boa literatura, boa literatura mesmo, boa literatura pra mim, coisa de pouca significância, é caminhar numa sexta-feira machucada sobre um asfalto garoado e não saber se estou num conto que li recentemente ou se o conto está em mim.

A bem da verdade, pois sou um homem de verdades fracassadas, foda-se. Só queria ser o melhor chutador de tampinhas daquela rua, daquela tristeza, daquele desjeito com a vida. Sentir algum rastro de beleza escondida.

Só o barulho da borracha no chute e depois o barulho da tampinha aterrissando. E um depois do outro, os dois se procuram, os dois se encontram, se juntam os dois, se prendem, se integram, amorosamente. É preciso sentir a beleza de uma tampinha na noite, estirada na calçada. Sem o quê, impossível entender meu trabalho.

Fonte: Antônio, João. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

Vocês me desculpem, não vou falar de flores

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Texto de Maria Karina

Não consigo lembrar a primeira vez que quis salvar o mundo, mas lembro muito bem quando sussurraram pra mim que eu tenho apenas duas mãos. Não que isso tenha ajudado. Aprendi que às vezes versar sentimentos é como um balanço na rede.

Esses dias tenho ensaiado possibilidades de apresentação para uma aula que darei ainda esse semestre. Pois é, tem gente que usa o banheiro pra ensaiar o canto e outras a atuação, eu uso pra ensaiar ser professora. A minha maior preocupação é ser pouca. E eu sou. Em todo lugar os camaradas já disseram que há uma guerra, que é necessário levar fogo e alimento. E vocês sabem como é grande o mundo.

Dói, porque me encarreguei de limpar o brilho. A gente não pode obrigar a importância do opaco, mas como ele é preciso. Mais que viver ou navegar. Depois que a gente desengana o sucesso é bobagem, a gente nem liga em andar nu e prefere depender de carona. Será que se eu levar o meme do “falta amor mas também falta interpretação de texto”, ajuda? Calma, não estou jogando na cara, isso aqui está uma bagunça e ninguém tem obrigação de entender. Mas falta, né? Ô se falta. Imagina todo mundo percebendo as farsas que nos golpeiam da televisão? Só sei que a estupidez não tem mesmo nada de engraçada.

Como pesam esses 2016 anos. Ando sendo orientada para o presente, mas a gente anda só se afastando dele. E eu também não cantarei o mundo futuro. Por que a gente não tem a mania das mãos dadas, heim? Vocês me desculpem, mas meu coração está parando de crescer. Não sei se posso criar vida para essas mulheres e homens presentes. Pode ser que tudo resulte Macabéa, com a diferença que somos malditos e sabemos que somos.

Apesar de também iniciada, não tenho conseguido respirar dentro das palavras que Fernando Sabino escreveu em uma das muitas cartas trocadas entre ele e Clarice Lispector, mas é questão de vida, ou isso ou me afundo:

[…] posso perceber uma coisa muito mais importante do conto: que você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito: o que é preciso é sofrer bem: é uma diferença bem importante, para a qual o Mário sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compreensão, mas um reflexo.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro. Rocco, 2002.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

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Lima Barreto e as mulheres

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Texto de Maria Karina

“É o fim dos tempos”

Você alguma vez já se perguntou quantos mil anos faz que essa expressão vem sendo usada? Eu acabo sempre pensando se ela vem coberta de ingenuidade ou ignorância. Talvez os dois, talvez nenhum. Tem gente que usa mesmo só para angariar medo.

Ela é bastante usada quando depois de casos de violência, principalmente os mais brutais, como o da jovem estudante indiana que teve as entranhas arrancadas à mão em um estupro coletivo, “porque” saiu à noite com um amigo para ir ao cinema.

Talvez seja isso.

Para as mulheres sempre foi “o fim dos tempos”.

É duro viver no ano de 2016 e ter que ler que uma mulher foi assassinada pelo ex ou atual alguma coisa por simplesmente romper a relação. Mais duro ainda é saber que não é uma, são várias, o tempo todo. A tia agredida, a prima estuprada, a amiga abusada. Você.

“É o fim dos tempos”, eles dizem. Lima Barreto, no entanto, já contou como esse “fim dos tempos” funciona lá em 1915. Isso mesmo, há 101 anos:

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio a morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão. O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação. O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido. Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

Vida urbana, 27-01-1915.

Fonte: BARRETO, Lima. Crônicas escolhidas Lima Barreto. São Paulo. Ática, 1995.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

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Polêmica: Rubem Alves favorável à eutanásia

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Texto de Maria Karina

Apesar de a eutanásia ser uma prática que vem desde a Grécia e Roma antigas, o assunto ainda é um grande tabu. São poucos os países que permitem o procedimento, que se trata, basicamente, do auxílio médico direto para provocar a morte de um paciente em determinado estado de saúde. Existe também o suicídio assistido, nesse caso, a própria pessoa tem facilitado o acesso à droga letal, mas não pode ter ajuda de terceiros na execução. Ambos procedimentos para serem autorizados exigem alguns requisitos importantes, como a lucidez do paciente e a comprovação do grave quadro clinico.

Recentemente o assunto voltou a ser discutido através do filme “Me before you” (Como eu era antes de você, em tradução brasileira), que conta a história de um rapaz que sofre um acidente e fica tetraplégico, o que decai drasticamente a sua qualidade de vida, pois além da perda de quase toda sua capacidade motora, sua imunidade reduz cada vez mais. A história apresenta muitos estereótipos, o rapaz rico, a moça pobre, uma paixão de temporada. A trama, no entanto, centra-se na decisão do rapaz pela eutanásia. Será que ao se apaixonar ele poderá mudar de ideia?

Outro filme que tratou do assunto e foi alvejado de boas críticas, concorreu (e venceu) diversos prêmios, foi Menina de ouro. Nele, conta-se a história de uma lutadora de boxe incrivelmente determinada e talentosa, que tem a medula espinhal lesionada durante uma luta – e assim como no caso do filme mencionado acima, perde praticamente toda sua capacidade motora, precisa lidar com amputação, entre outros problemas. A grande polêmica gerada pelo filme foi justamente a decisão dela de morrer, porque ela nunca mais subiria no ringue. O ringue era a vida dela. Era seu propósito. O fato de seu chefe, como ela o chamava, ter feito isso sem o aval de autoridades atiçou as fogueiras da nossa idade média moderna. Mas ele realizou o pedido dela. A decisão não foi fácil, afinal, ele a amava. Como aceitar esse desejo de morte de alguém que amamos?

E é nesse barulho que surgem as preciosas palavras do multifacetado Rubem Alves, o velhinho eterno jovem que nos deixou há pouco tempo. No livro Desfiz 75 anos, Rubem escreveu um texto entitulado justamente “Eutanásia”, em que se posiciona claramente favorável ao procedimento, por uma questão ética. A ética conceituada por Albert Camus. Aproveitem alguns trechos:

Sempre que se fala em eutanásia seus opositores invocam razões éticas e teológicas. Dizem que a vida é dada por Deus e que, portanto, somente Deus tem o direito de tirá-la. Eutanásia é matar uma pessoa e há um mandamento que proíbe que isso seja feito. Assim, em nome de princípios universais, permite-se que uma pessoa morra em meio ao maior sofrimento.

Pois eu afirmo: sou a favor da eutanásia por motivos éticos. Albert Camus, numa frase bem curta, disse que, se ele fosse escrever um livro sobre ética, 99 páginas estariam em branco e na última página estaria escrito “amor”.

Todos os princípios éticos que possam ser inventados por teólogos e filósofos caem por terra diante dessa pequena palavra: “amar”. Deus é amor.

O amor, segundo os textos sagrados, é fazer aos outros aquilo que desejaríamos que fosse feito conosco, numa situação semelhante.

Amo os cães e já tive dezenas. Muitos deles eu mesmo levei ao veterinário para que lhes fosse dado o alívio para o seu sofrimento. Fiz isso porque os amava, eram meus amigos, queria o bem deles. E eu gostaria que fizessem o mesmo comigo, se estivesse na sua situação de sofrimento.

Defender a vida a todo custo! De acordo. É a filosofia de Albert Schweitzer e a filosofia de Mahatma Gandhi: reverência pela vida. Tudo o que vive é sagrado e deve ser protegido.

Mas o que é a vida? Ouço os bem-te-vis cantando: eles estão louvando a beleza da vida. Vejo as crianças brincando: elas estão gozando as alegrias da vida. Vejo os namorados se beijando: eles estão experimentando os prazeres da vida. Que tudo se faça para que a vida se exprima na exuberância da sua felicidade! Para isso todos devem ser feitos.

Mas eu pergunto: a vida não será como a música? Uma música sem fim seria insuportável. Toda música quer morrer. A morte é parte da beleza da música. A manga pendente num galho: tão linda, tão vermelha. Mas o tempo chega quando ela quer morrer. A criança brinca o dia inteiro. Chegada a noite, ela está cansada. Ela quer dormir. Que crueldade seria impedir que a criança dormisse quando o seu corpo quer dormir.

A vida não pode ser medida por batidas de coração ou ondas elétricas. Como um instrumento musical, a vida só vale a pena ser vivida enquanto o corpo for capaz de produzir música, ainda que seja a de um simples sorriso.

Fonte: ALVES, Rubem. Desfiz 75 anos. Campinas. Papirus, 2009.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

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Drummond: A brincadeira como revolução

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Texto de Danilo Lago

Infectados pelo vírus da guerra. A saliva é pólvora, o olhar escopeta. Nos matamos em cada esquina, em cada diálogo sepultado, em discussões que poderiam ser finalizadas com apertos de mão. Mas os revólveres sempre estão engatilhados.

Olho por olho, dente por dente, horizontes amputados. Em meio a tal cenário bélico, abrir um livro é um ato revolucionário. E eu o abri bem numa crônica subversiva, numa guerrilha de palavras, chamada “Vamos brincar”.

Nela, o poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade faz apologia de um dos maiores atos revolucionários da vida: Brincar. Nunca se esqueçam, as brincadeiras são perigosas:

E adotemos não somente os jogos com fumaças cerebrais, que estão na moda, mas também a amarelinha, o chicote-queimado, o tempo-será, a gata-parida, ocupações deliciosas que tiram todo o tempo e prazer de guerrear.

Fonte: Andrade, Carlos Drummond de. De notícias e não notícias faz-se a crônica. Rio de Janeiro. Record, 2007.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

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Drummond: Pelo fim do xingamento animal

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Texto de Danilo Lago

Quem nunca xingou o chato do irmão, o namorado machista, o juiz desatento, com o nome de algum inocente animalzinho, tipo: “Ele é um cachorro sem vergonha”, “você é burro, heim”, “ô, seu jumento”.

É zuado, é decadente, é burrice (ops, foi mal), mas várias vezes roubamos os nomes dos animais para apontarmos as nossas deficiências.
Calma, nem tudo está perdido.

Fazendo justiça aos nomes dos animais, o poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade, na crônica “Modos de xingar”, apresenta-se como um grande militante da luta contra a profanação dos nossos irmãos e irmãs animais, se liga só:

Jamais aprovei o uso indevido de nomes de animais para qualificar ou verberar deficiências intelectuais ou morais do próximo. A injustiça feita ao cachorro, alçado “cachorrão”, como sinônimo de mau-caráter, dói e revolta. A zebra não é responsável pelo baixo QI de seres humanos, nem o camelo tampouco. Burro, burróide, besta, bestalhão, jumento: outros exemplos de impropriedade vocabular, que não recomendam a linguagem crítica. Irracionais prestantes, muitas vezes providos de razão prática luminosa, não costumam, que eu saiba, xingar os de sua espécie com invectivas desta ordem:

– Homem!

– Homúnculo!

– Reverendíssimo homem!

Fonte: Andrade, Carlos Drummond de. De notícias e não notícias faz-se a crônica. Rio de Janeiro. Record, 2007. (pág. 92).


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

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