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Polêmica: Rubem Alves favorável à eutanásia

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Texto de Maria Karina

Apesar de a eutanásia ser uma prática que vem desde a Grécia e Roma antigas, o assunto ainda é um grande tabu. São poucos os países que permitem o procedimento, que se trata, basicamente, do auxílio médico direto para provocar a morte de um paciente em determinado estado de saúde. Existe também o suicídio assistido, nesse caso, a própria pessoa tem facilitado o acesso à droga letal, mas não pode ter ajuda de terceiros na execução. Ambos procedimentos para serem autorizados exigem alguns requisitos importantes, como a lucidez do paciente e a comprovação do grave quadro clinico.

Recentemente o assunto voltou a ser discutido através do filme “Me before you” (Como eu era antes de você, em tradução brasileira), que conta a história de um rapaz que sofre um acidente e fica tetraplégico, o que decai drasticamente a sua qualidade de vida, pois além da perda de quase toda sua capacidade motora, sua imunidade reduz cada vez mais. A história apresenta muitos estereótipos, o rapaz rico, a moça pobre, uma paixão de temporada. A trama, no entanto, centra-se na decisão do rapaz pela eutanásia. Será que ao se apaixonar ele poderá mudar de ideia?

Outro filme que tratou do assunto e foi alvejado de boas críticas, concorreu (e venceu) diversos prêmios, foi Menina de ouro. Nele, conta-se a história de uma lutadora de boxe incrivelmente determinada e talentosa, que tem a medula espinhal lesionada durante uma luta – e assim como no caso do filme mencionado acima, perde praticamente toda sua capacidade motora, precisa lidar com amputação, entre outros problemas. A grande polêmica gerada pelo filme foi justamente a decisão dela de morrer, porque ela nunca mais subiria no ringue. O ringue era a vida dela. Era seu propósito. O fato de seu chefe, como ela o chamava, ter feito isso sem o aval de autoridades atiçou as fogueiras da nossa idade média moderna. Mas ele realizou o pedido dela. A decisão não foi fácil, afinal, ele a amava. Como aceitar esse desejo de morte de alguém que amamos?

E é nesse barulho que surgem as preciosas palavras do multifacetado Rubem Alves, o velhinho eterno jovem que nos deixou há pouco tempo. No livro Desfiz 75 anos, Rubem escreveu um texto entitulado justamente “Eutanásia”, em que se posiciona claramente favorável ao procedimento, por uma questão ética. A ética conceituada por Albert Camus. Aproveitem alguns trechos:

Sempre que se fala em eutanásia seus opositores invocam razões éticas e teológicas. Dizem que a vida é dada por Deus e que, portanto, somente Deus tem o direito de tirá-la. Eutanásia é matar uma pessoa e há um mandamento que proíbe que isso seja feito. Assim, em nome de princípios universais, permite-se que uma pessoa morra em meio ao maior sofrimento.

Pois eu afirmo: sou a favor da eutanásia por motivos éticos. Albert Camus, numa frase bem curta, disse que, se ele fosse escrever um livro sobre ética, 99 páginas estariam em branco e na última página estaria escrito “amor”.

Todos os princípios éticos que possam ser inventados por teólogos e filósofos caem por terra diante dessa pequena palavra: “amar”. Deus é amor.

O amor, segundo os textos sagrados, é fazer aos outros aquilo que desejaríamos que fosse feito conosco, numa situação semelhante.

Amo os cães e já tive dezenas. Muitos deles eu mesmo levei ao veterinário para que lhes fosse dado o alívio para o seu sofrimento. Fiz isso porque os amava, eram meus amigos, queria o bem deles. E eu gostaria que fizessem o mesmo comigo, se estivesse na sua situação de sofrimento.

Defender a vida a todo custo! De acordo. É a filosofia de Albert Schweitzer e a filosofia de Mahatma Gandhi: reverência pela vida. Tudo o que vive é sagrado e deve ser protegido.

Mas o que é a vida? Ouço os bem-te-vis cantando: eles estão louvando a beleza da vida. Vejo as crianças brincando: elas estão gozando as alegrias da vida. Vejo os namorados se beijando: eles estão experimentando os prazeres da vida. Que tudo se faça para que a vida se exprima na exuberância da sua felicidade! Para isso todos devem ser feitos.

Mas eu pergunto: a vida não será como a música? Uma música sem fim seria insuportável. Toda música quer morrer. A morte é parte da beleza da música. A manga pendente num galho: tão linda, tão vermelha. Mas o tempo chega quando ela quer morrer. A criança brinca o dia inteiro. Chegada a noite, ela está cansada. Ela quer dormir. Que crueldade seria impedir que a criança dormisse quando o seu corpo quer dormir.

A vida não pode ser medida por batidas de coração ou ondas elétricas. Como um instrumento musical, a vida só vale a pena ser vivida enquanto o corpo for capaz de produzir música, ainda que seja a de um simples sorriso.

Fonte: ALVES, Rubem. Desfiz 75 anos. Campinas. Papirus, 2009.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com