Escritores

As pétalas abertas da Revolução dos Cravos

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Texto de Maria Karina

Muitas obras criadas a partir de regimes totalitários são como a flor que rompe o asfalto – não a feia como cantou Carlos Drummond de Andrade –, a bela,  corada, valente, sofrida e arrebatadora flor. Assim são Levantado do chão e O Dia dos Prodígios, de José Saramago e Lídia Jorge, respectivamente. Romances não apenas inspirados a partir da Revolução dos Cravos como também deflagradores de outras revoluções. Envolve os leitores nas mais diversas paixões, levando-os do estado de incompreensão ao encantamento, de indignação à esperança.

Chorando as lágrimas de João Mau-Tempo quando cativo do Latifúndio ou as de Maria Adelaide diante da festa dos soldados floridos. Desiludindo-se como Jesuína Palha sem seus heróis ou reagindo como Branca quando regurgita a própria vida antes engolida pelas violências de José Pássaro, nascido “de pés”. Todos personagens das obras aqui experimentadas.

Dois escritores que trazem frescor e se rebelam contra o contexto literário da época. Ele reinventa, faz da grandeza parágrafos, traz fluidez e a língua dos lavradores. A pontuação é subversiva: vírgula em vez de pontos finais, porque a paisagem nunca acaba e letras maiúsculas em vez de travessão, porque a palavra é direito, não permissão. Coroa rei o narrador – que reflete, ironiza, conta o desfecho antes do fim, recua e avança assim do nada. Ela, ainda mais audaciosa, fez um romance bipolar, ora dramático ora lírico. Com uma narrativa polifônica, em que “a voz do povo é a voz de Deus”. O narrador um fiel com pouca autonomia. É preciso tomar cuidado com os desentendimentos, aqui também falta travessão e às vezes parece dia de feira, cabendo ao leitor ser mediador da confusão.

Ele fala de Monte Lavre e arredores, dos tempos maus e dos menos piores; ela nos leva até Vilamaninhos, rural cidade de pacatos cidadãos que só chamam atenção quando a cobra voa e a mula sorri a santa trindade. Ele faz contraposição do tempo em calendário católico. Ela contrapõe mundos, do desconhecido campo ao urbano notório. No chão dele andam muitos sapateiros descalços, mulheres caladas e trabalhadores plantando até o último suor para colher migalhas. No dia dela andam mulheres que gritam, outra que só sonha, umas donas de si e outra que só apanha, vários Josés e os  velhos surdos – sempre sentados.

Levantado do Chão é homem que se revolta ao ver lutar até cair pai e filho anônimos para divertimento dos donos do Latifúndio. São também formigas aos milhares que como cães levantam a cabeça para finalmente narrar suas versões e buscar o mínimo de dor, porque gozo não conhecem. São mais que ondas passageiras, são homens e mulheres que decidiram atravessar o mar e ocupar as colheitas, porque já não suportam que animais domésticos comam mais do que eles. Saem todos juntos, fantasmas e poucas carnes dando ao começo esperança de paisagens mais gentis.

A família Mau-Tempo carrega marcas que só esse sobrenome explica, desde as mudanças aos abandonos frequentes. Do pai Domingo, que tão depressa morreu com a corda no pescoço, ao filho João, que tendo lutado tanto em sobrevida só presenciou morto a revolução. Os exclusivos olhos azuis do avô causam mistérios que só o abuso de uma antepassada esclarece. Esse céu manchado com gritos vermelhos surge na neta, que trazendo as boas novas leva nome da santa do cadáver cheirando a rosa. Prenúncio da Revolução dos Cravos que abriria pétalas para a subversão dos lavradores. Florescida apenas na geração de Maria Adelaide, que trocando Mau-Tempo por Espada e desilusão por luta, tornou-se mulher.

O Dia dos Prodígios conta ao fechado povoado que Dom Sebastião não volta mais, se quiserem é aceitar que cobra salta e mula nessa terra mal tem dentes. Soldados são de carnes e vêm cantar a revolução, não fazem malabares nem trazem multidão. Nada muda sem disposição, falta rei, falta Salazar e não se sabe onde colocar tantos cravos. Foi então Macário aceito por Carminha e Branca feita deusa do tempo, quase liberta quase presa, escolheu não ter amante que a torne realeza.

Do furdunço e do tédio nascem mitos, que exibem mulheres Jesuínas que nascem Palhas e são fáceis de pegar fogo. Do padre que não esconde as vergonhas nasce Carminha que precisa esconder as origens. Da tradição dos homens invejosos e ignorantes nascem mulheres violadas. Do copo de boêmia tocam bandolins aos Mácarios não amados. Faltam flores, mas sobram sinais. Mula e Cobra que juntas conspiram contra o povoado de Vilamaninhos, entre voos e sorrisos. Nos sonhos dos moradores, avisam que a mudança não é milagre, animais livres depois de amarrados e assassinados é que são. Os filhos e noivo que a guerra leva e a morte que traz notícias tornam Esperancinha a mãe, e Parda a quase viúva.

Assim, precisando ser melhor contada, cada obra tem seus olhos. Sabendo cada par pelo que chorar. Tantos anos, nada resolvido. Mas isso só sabia Lídia Jorge que escreveu a obra em tempo maduro, seis primaveras depois da Revolução dos Cravos. Saramago, ainda no fogo que queimou tudo, inclusive ele, pintou de esperança a flor antes sangrada – que furou o coração dos trabalhadores que pelejavam mesmo sem armas. As duas são começo. O futuro a outras obras pertence.

Referências

JORGE, Lídia. O Dia dos Prodígios. Portugal: Dom Quixote, 2010.

SARAMAGO, José. Levantado do Chão. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

SECCO, Lincoln. A revolução dos Cravos. São Paulo: Alameda, 2004.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

 

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Sem saldo

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Texto de Danilo Lago

Dia de devolver os livros na Biblioteca Sérgio Buarque de Holanda. Lembrei em cima da hora. A biblioteca já ia fechar. Peguei O Paraíso é Bem Bacana do André Sant’Anna e o Lobo da Estepe do Hermann Hesse e saí vazado de casa. Embarquei no primeiro ônibus que passou. Tirei o bilhete único do bolso. O esfreguei na catraca. A luzinha vermelha acendeu. Sem saldo. Com cara de bobo, guardei o bilhete no bolso. Pedi pro motorista parar no próximo ponto. Ele perguntou pra onde eu ia. Pra biblioteca, devolver esses livros, respondi e mostrei. Daí ele perguntou se era aquela que ficava no centro de Itaquera. Eu respondi que sim, sempre pego livros na Buarque. Então, não esquenta não, fica aí, cê desce pela porta da frente, o Marcos me disse. E continuou: tô lendo uma antologia do Solano Trindade. Cê já leu alguma coisa dele?

 

SUGESTÕES PROCÊIS

 

  • Biblioteca Sérgio Buarque de Holanda. Rua Gregório Ramalho, 103. Itaquera. São Paulo. SP.

 

LIVROS

  • O Paraíso é Bem Bacana, André Sant’Anna, Companhia das Letras. Esse livro é foda. Sabe aquele lance que a gente escuta em palestras e oficinas sobre como escrever bem? Então, o André faz exatamente o contrário. Bagulho é escrito no osso. Baita trampo com a linguagem. Escreve sem algemas no pulso. Numa história improvável sobre um anti-herói chamado Muhammad Mané. Futebol, intolerância religiosa, pobreza, xenofobia, terrorismo, são alguns assuntos que aparecem no romance. Vale gastar a vista.

 

  • O Lobo da Estepe, Hermann Hesse, Record. Recolhi depoimentos curtos de pessoas que já leram esse livro pra não ficar aquela coisa de só eu falo. Maria Karina: “Honestamente não sei dizer o que achei. Foi um livro pra sentir bastante, respirar pouco, mas que eu precisava.” Amanda Brito: “Para cada página que escrevo, um eu diferente. Selvagens. Apenas à espera de alguém que as leiam.”

 

  • Poemas Antológicos de Solano Trindade, Nova Alexandria. Emprestei esse hoje da biblioteca. Indicação do Marcos. Do pouco que li, gostei. Na apresentação do livro, Zenir Campos Reis nos fala algo que resolvi compartilhar: “a poesia de Solano Trindade foi escrita para ser declamada, e não para a leitura silenciosa. Ela carece do suporte da voz e do gesto, da expressão corporal. É poesia destinada ao espaço público – a tribuna e o palco. Diferente da poesia que se lê apenas com os olhos, na intimidade da casa. A maior parte da sua poesia abraça causas públicas, a justiça social, a defesa das camadas oprimidas da sociedade, especialmente a dos negros. Nasce da vivência das causas do povo miúdo e da experiência da cultura popular, falada, cantada e dançada.”

Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto.

Um bucado de tristeza pra poesia sambar

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Texto de Douglas Alexandre

– Oxe! Como assim? Tristeza é quando a gente sofre. Fica triste e tal. Não quer sair do quarto. Fica lá ouvindo música. Pensa na vida, na infância. Que pergunta difícil.

Caminha, de mãos pensas, numa avenida cinzenta e asfaltada, sem sentido, longa de imensos quilômetros, debaixo do sol. Ao seu cabo, esbarra num gigantesco muro branco que esconde o céu e todo o resto do mundo atrás de si. Neste muro, há uma porta escura, de madeira, com uma placa pendurada na maçaneta: “Trouxeste a chave? ”.

Às vezes, atrás da porta, a gente pode encontrar o resto da rua, que continuaremos trilhando em direção a outras portas, outras maçanetas, outras chaves caídas na estrada. Amiúde, ao abrir com esperança, de mãos trêmulas, daremos de cara com a sala de casa, com os mesmos rostos, o mesmo solo, o mesmo teto que ora oprime, ora aconchega. Mas quando tropeçarmos na chave certa, atrás da porta estará o tão esperado quintal, envolto por uma eterna tardezinha obtusa e habitado por todas as amigas e os amigos de infância, brincando com tudo o que agora já não se brinca.

Para isso, deve-se usar a tristeza para decifrar o próprio silêncio. Saber que se pode produzir com ela manhãs, quintais, sonhos, delírios. Isso é poesia. É costurar a si mesmo. Reparar com retalhos as partes rasgadas do corpo, pra um dia virar um bicho, embora remendado, colorido, resistente, encantador.

Manuel de Barros (1916-2014), poeta mato-grossense, em sua primeira infância, diz como certa vez transformou um castigo, pretenso causador de dor, em poesia:

PARRREDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
– Corumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte  a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu para decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
-Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas de Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão
– Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

 

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: as infâncias de Manoel de Barros / iluminuras de Martha Barros. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.


Douglas Alexandre é um diplomata em formação, e um formador em erudição, diretamente das periferias da moradia estudantil. Para conhecer mais:

Blog: http://bordeldasideias.blogspot.com.br/

 

Realidade virtual é mato

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Texto de Danilo Malabrito

Confesso que desde a primeira vez que ouvi falar em “drones”, já aumentou bastante o meu medo do futuro. Talvez porque os conheci justamente em uma notícia que dizia serem usados em operações militares. Para matar pessoas. Confesso que agora já não sei nem o que é mais doído, a atrocidade em si ou a frieza ao escrever isso num texto.

É aquela coisa. A tecnologia é criada pro bem e o homem dá um jeito de pecá-la, ou é criada já pro pecado, e o homem acaba dando um jeito de usá-la pro bem? O ser humano é mau por natureza então corrompe a sociedade, ou nasce bom e é corrompido por ela? O biscoito é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Dúvidas que a gente leva pro túmulo.

Mas este texto não é sobre drones nem sobre desgraças nem sobre pecados. Hoje em dia tá na moda a VR: “Virtual Reality”. Realidade virtual, pra nós que usamos chinelos. A busca pela imitação da realidade, pensa só. Sei que os usos dessa inovação são inúmeros, maiores no entretenimento. Imitar a realidade pra se sentir mais vivo… Os dilemas da vida, né.

Claro, eu sei que é o andamento natural da tecnologia. Eu sei que é inevitável essas coisas. O progresso é um fato, tipo os drones. E as dúvidas. Não, não é que eu ache que os óculos de realidade virtual, por exemplo, vão ser usados por militares para matar pessoas. Se bem que sei lá também, a cada inovação, falta menos quilômetros pra chegar em White Bear (se você ainda não viu “Black Mirror”, para tudo e começa já!). Mas eu disse que o texto não era sobre pecados.

Mas e o Saramago? O Saramago tá aqui porque é autoridade no assunto desse texto. Esses dias tava lendo um livro de entrevistas com ele e sua esposa, a Pilar. Daí que um trecho lá me fez ficar pensando como é louco isso que a gente tem de querer imitar tudo, e desvendar tudo, e como isso é quase sempre de um jeito mais mecanizado, mais morto.  A gente quer entender o mundo às vezes de uma forma violenta com nossa humanidade. Tô falando do apagamento dos sonhos. Juro que não tenho nada contra o avanço tecnológico, é lógico. É só que quando penso nos rumos que a gente pode tomar…

No “Eu, Robô” (o livro, lá de 1950), tem uma frase assim: “De agora em diante, todos os conflitos humanos são evitáveis. Apenas as máquinas são inevitáveis”.

Mas o quanto a gente tem que se deletar pra abrir espaço pra máquina? A resposta é que.

Saramago. Tem um trecho da entrevista em que ele faz uma senhora revelação. O mestre em realidade virtual com as distopias de seus livros diz que essa tecnologia já existe há milênios, acredite ou não.

Com todo respeito às verdades que os homens procuram pra amaciar os pecados que cultivam, meu sonho favorito é um que eu saía gritando na rua “parem de assassinar mistérios!!!”. E eu nem sabia mais se acordava.

Costumo dizer que, depois de Deus, sonhar é o maior mistério que não precisa de resposta.

O sonho é uma espécie de realidade virtual. A realidade virtual não foi inventada ontem, o homem das cavernas já sabia o que era a realidade virtual… porque sonhava.

Portanto não me venham cá com histórias… Ai! a realidade virtual! Ui!… Isso é tão velho como o mundo.

Estamos a viver no sonho coisas como se elas existissem – estão dentro da nossa cabeça simplesmente. É como se viajássemos para dentro de nossa cabeça e vivêssemos aquilo que está lá.

Antes, não lhe podíamos chamar realidade virtual, porque o conceito não existia. Chamávamos-lhe apenas sonho.

E a verdade é que nós dormimos mas o cérebro não dorme. Portanto dos dados da experiência, da consciência e do que pode recordar, o cérebro organiza histórias.

O cérebro não dorme, aliás, nada dorme. O coração tampouco dorme, o sangue flui. Todas essas células, tudo isso, a bicharada que está dentro de nós não para.

O sangue tem de chegar ao cérebro, a toda a parte, e lá tem os seus caminhos, as suas comportas, os seus diques, os seus canais de comunicação. É assim, pá…

FONTE: MENDES, Miguel Gonçalvez. José e Pilar: conversas inéditas. São Paulo, Cia das Letras, 2012, p. 21.


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas. Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Pablo Neruda: I Love Batata Frita

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Texto de Danilo Lago

Confesso e confesso e confesso.

Foi mais forte do que eu. Sempre é. Sou culpado. Ainda mais que elas estavam ali, no cantinho da mesa. Fresquinhas, sequinhas, indefesas. E com alho.

A saborosa simplicidade da terra moscando na minha frente. O perfume excitante, a textura crocante, o bronzeado da pele. E sal pra equilibrar o caos do paladar.

Dizem que são francesas, belgas. São acompanhamentos, acompanhadas. Um simples vegetal, produto nobre. Se come com talher, com os dedos. Tanto faz. Nada disso importa. Pra mim, elas são brasileiras. E reticências. Banquete das ruas.

Mas a carne é farsa. Ainda sou culpado. Não aguentei. Nunca aguento. Acho que nunca vou aguentar. Sem arrependimentos. Lombriga é mato, moscou lambeu o prato.

A minha irmã já tinha avisado, não come, heim, esse restinho é meu, cê já comeu quase tudo, mó zoião.

Concordei com ela. Balancei a cabeça, fingi não fazer questão. Continuei mastigando o meu filé de frango, grelhado, com orégano.

Ela acreditou, mastigava como se o mundo fosse uma canção do Marcelo Jeneci. E se esqueceu de si.

Mirei bem o garfo, dei um tiro certeiro e arrastei o resto das batatinhas pra minha boca. Uma delícia. Confesso. Ô coisa gostosa. Confesso. Queria mais. Confesso. Muito mais.

Ela ficou brava. Não demorou muito, deixou pra lá. Só mandou eu me ferrar, seu fominha do caramba, zóião, parece que passa fome, qué isso, pelo amor.

Lembrei disso por causa de um poeminha do Pablo Neruda, no livro Navegações e Regressos. Pelo jeito, ele também era do tipo que disputava as últimas batatinhas da mesa.

ODE ÀS BATATAS FRITAS

Crepita

no azeite

fervendo

a alegria

do mundo:

as batatas

fritas

entram

na frigideira

como nevadas

plumas

de cisne matutino

e saem

semidouradas pelo crepitante

âmbar das olivas.

O alho

lhes acrescenta

sua terrena fragrância,

a pimenta,

pólen que atravessou os recifes,

e

revestidas

de novo

com traje de marfim, enchem o prato

com a repetição de sua abundância

e sua saborosa simplicidade da terra.

Fonte: Neruda, Pablo. Navegações e regressos. São Paulo: Mediafashion, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

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Vocês me desculpem, não vou falar de flores

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Texto de Maria Karina

Não consigo lembrar a primeira vez que quis salvar o mundo, mas lembro muito bem quando sussurraram pra mim que eu tenho apenas duas mãos. Não que isso tenha ajudado. Aprendi que às vezes versar sentimentos é como um balanço na rede.

Esses dias tenho ensaiado possibilidades de apresentação para uma aula que darei ainda esse semestre. Pois é, tem gente que usa o banheiro pra ensaiar o canto e outras a atuação, eu uso pra ensaiar ser professora. A minha maior preocupação é ser pouca. E eu sou. Em todo lugar os camaradas já disseram que há uma guerra, que é necessário levar fogo e alimento. E vocês sabem como é grande o mundo.

Dói, porque me encarreguei de limpar o brilho. A gente não pode obrigar a importância do opaco, mas como ele é preciso. Mais que viver ou navegar. Depois que a gente desengana o sucesso é bobagem, a gente nem liga em andar nu e prefere depender de carona. Será que se eu levar o meme do “falta amor mas também falta interpretação de texto”, ajuda? Calma, não estou jogando na cara, isso aqui está uma bagunça e ninguém tem obrigação de entender. Mas falta, né? Ô se falta. Imagina todo mundo percebendo as farsas que nos golpeiam da televisão? Só sei que a estupidez não tem mesmo nada de engraçada.

Como pesam esses 2016 anos. Ando sendo orientada para o presente, mas a gente anda só se afastando dele. E eu também não cantarei o mundo futuro. Por que a gente não tem a mania das mãos dadas, heim? Vocês me desculpem, mas meu coração está parando de crescer. Não sei se posso criar vida para essas mulheres e homens presentes. Pode ser que tudo resulte Macabéa, com a diferença que somos malditos e sabemos que somos.

Apesar de também iniciada, não tenho conseguido respirar dentro das palavras que Fernando Sabino escreveu em uma das muitas cartas trocadas entre ele e Clarice Lispector, mas é questão de vida, ou isso ou me afundo:

[…] posso perceber uma coisa muito mais importante do conto: que você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito: o que é preciso é sofrer bem: é uma diferença bem importante, para a qual o Mário sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compreensão, mas um reflexo.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro. Rocco, 2002.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

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Patativa do Assaré: Saudade é canto magoado

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Texto de Danilo Lago

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente

O suspiro da ausência rasga os ponteiros do relógio. É o que sinto ao ler esse verso parido no sertão do nordestino coração de Patativa do Assaré. Poesia que encabula os meus verbos, transformando os meus trincados suspiros em magoados sentimentos. É poesia feita com o silêncio do corpo calejado, debaixo do sol forte, a enxada pesando nos ombros, os joelhos rezando por chuva. É um grito contra a opressão do mundo dos homens e uma rasteira ao dos deuses. É a Saudade feita coisa.

Meu nordestino avô, Agnelo, se foi na semana passada, antes do combinado. Daí, meu suspiro de ausência. Ele adorava a poesia do Patativa do Assaré, embora nunca tivesse adquirido nenhum livro sequer do poeta. Conhecia as poesias de ouvido, pela força da tradição oral.

Pelejei pra conseguir encontrar o livro Ispinho e Fulô, até que encontrei um exemplar no sebo do messias, no centro de São Paulo. É difícil acreditar que pra conseguir qualquer livro de um dos poetas mais populares do Brasil é necessário enfrentar tamanha dificuldade.

Com o livro em punho, fui até a casa do meu avô. Passamos horas, ou as horas passaram, não sei direito, comungando daquelas poesias. Uma tarde inesquecível e inventada. Eu lhe disse que queria ser escritor, ele ficou me olhando, olhando, fechou os olhos e escapou algumas palavras:

– Escrever é um ofício bom, viu, apesar de ser uma peleja danada pra escolher as palavra. Tem que pensá muito antes de bota a palavra no papel. Você sabia que pra ser escritor tem que ter uma estrela no coração?

SAUDADE

Saudade dentro do peito

É qual fogo de monturo,

Por fora tudo perfeito,

Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa

Sem dó e sem piedade,

Porém não há dor que doa

Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio

Pra quem na vida gozou,

É um grande saco cheio

Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente.

A saudade é jardineira

Que planta em peito qualquer

Quando ela planta cegueira

No coração da mulher,

Fica tal qual a frieira

Quanto mais coça mais quer.

Fonte: ASSARÉ, Patativa. Ispinho e Fulô. São Paulo. Hedra, 2005.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

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João Cabral: a escrita meio-de-campo

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Texto de Danilo Malabrito

Quem lê a poesia de João Cabral de Melo Neto logo pode observar que o poeta é um mediador do olhar de trás das vistas. É com técnica e sutileza que ele desvenda em palavras a dor de cabeça das coisas.

Dizia ele que ter lido pela primeira vez o livro “Alguma Poesia”, de Drummond, aos 17 anos, foi o fator responsável por inicia-lo nessa jornada sem fim que é ser poeta. Mas arrisco dizer que um fator anterior foi fundamental pra composição de seu estilo: o instinto meio-campo.

Para os apreciadores do futebol, não é preciso dizer como o esporte respinga poesia, seja pela dança de um drible, pelo traço de um passe, pelo drama da defesa, o choro de frente com a festa, ou por elementos que transcendem o jogo em si.

Dentro dos gramados, é fato que os maiores poetas atuam geralmente na posição de meio-campo. Capazes de dar uma aspirina pra um jogo febril, são eles quem geralmente fazem jogadas que extraem flores do concreto, entortando passos, rabiscando zagas e desenhando esperanças, por mais bruta que uma partida esteja. Nunca me esqueço de uma frase do eterno mestre Telê Santana: “o passe é um gesto de amizade”. É preciso cuidar bem do enlace pra que se termine em gol.

Certamente, o instinto meio-campo continuou a coabitar João Cabral de Melo Neto mesmo após a aposentadoria precoce de sua primeira carreira. Pois pois! Nosso poeta não só era um apreciador do futebol como já foi mesmo jogador, chegando a ser campeão juvenil, aos 16 anos, como meia pelo Santa Cruz, time mais que tradicional de Recife, ainda que seu coração fosse América (coisas do futebol). Graças à sorte, ele não seguiu carreira e pudemos conhecer toda sua produção literária como tal. Imagina só como seria se ele fosse junto o poeta que foi e o jogador que podia ser? Que música será que ele ia pedir no fantástico depois de fazer um hat-trick, hein…

Mas assim como a poesia e assim como a vida, o futebol-arte, literalmente falando, não é apenas sobre a beleza das imagens. É também sobre ritmo, sobre entender percursos, tanto dos corpos, quanto dos dias. Sobre quando o sublime atinge um sofrimento. Ele ensina a conhecer a perda e descobrir a ausência. E, é claro, a apreciar presenças.

Futebol-arte é sobre não olhar relógios mesmo sabendo de nosso limite de tempo.

Cabral, como um bom poeta, sabia de todas essas coisas e as traduziu nos poemas que fez sobre esse esporte, nos dando passes certeiros. “Ademir da Guia”, “A Ademir Menezes”, “O Futebol Brasileiro Evocado da Europa” são alguns deles. Mas eu gostaria de destacar o poema “O Torcedor do América F.C.”, que pode ser o torcedor dos vários Américas que temos pelo Brasil, o torcedor de todos os chamados times pequenos ao longo do mundo todo, que conseguem eternizar suas conquistas na raridade de suas obras (Leicester FC que o diga!).

Nesse mundo em que a vitória significa a desumanização pela submissão às regras do capital, ele nos lembra o barato que é ser um perdedor.

 

O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C

O desábito de vencer

não cria o calo da vitória

não dá à vitória o fio cego

nem lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

pele sensível, núbil, nova,

ácida à língua qual cajá,

salto do sol no cais da Aurora.

 

Fonte: MELO NETO, João Cabral de. Museu de Tudo. Alfaguarda Brasil, 2009 (1ª edição publicada em 1975).


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas.Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Lima Barreto e as mulheres

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Texto de Maria Karina

“É o fim dos tempos”

Você alguma vez já se perguntou quantos mil anos faz que essa expressão vem sendo usada? Eu acabo sempre pensando se ela vem coberta de ingenuidade ou ignorância. Talvez os dois, talvez nenhum. Tem gente que usa mesmo só para angariar medo.

Ela é bastante usada quando depois de casos de violência, principalmente os mais brutais, como o da jovem estudante indiana que teve as entranhas arrancadas à mão em um estupro coletivo, “porque” saiu à noite com um amigo para ir ao cinema.

Talvez seja isso.

Para as mulheres sempre foi “o fim dos tempos”.

É duro viver no ano de 2016 e ter que ler que uma mulher foi assassinada pelo ex ou atual alguma coisa por simplesmente romper a relação. Mais duro ainda é saber que não é uma, são várias, o tempo todo. A tia agredida, a prima estuprada, a amiga abusada. Você.

“É o fim dos tempos”, eles dizem. Lima Barreto, no entanto, já contou como esse “fim dos tempos” funciona lá em 1915. Isso mesmo, há 101 anos:

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio a morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão. O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação. O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido. Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

Vida urbana, 27-01-1915.

Fonte: BARRETO, Lima. Crônicas escolhidas Lima Barreto. São Paulo. Ática, 1995.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

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