Poetas

Um bucado de tristeza pra poesia sambar

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Texto de Douglas Alexandre

– Oxe! Como assim? Tristeza é quando a gente sofre. Fica triste e tal. Não quer sair do quarto. Fica lá ouvindo música. Pensa na vida, na infância. Que pergunta difícil.

Caminha, de mãos pensas, numa avenida cinzenta e asfaltada, sem sentido, longa de imensos quilômetros, debaixo do sol. Ao seu cabo, esbarra num gigantesco muro branco que esconde o céu e todo o resto do mundo atrás de si. Neste muro, há uma porta escura, de madeira, com uma placa pendurada na maçaneta: “Trouxeste a chave? ”.

Às vezes, atrás da porta, a gente pode encontrar o resto da rua, que continuaremos trilhando em direção a outras portas, outras maçanetas, outras chaves caídas na estrada. Amiúde, ao abrir com esperança, de mãos trêmulas, daremos de cara com a sala de casa, com os mesmos rostos, o mesmo solo, o mesmo teto que ora oprime, ora aconchega. Mas quando tropeçarmos na chave certa, atrás da porta estará o tão esperado quintal, envolto por uma eterna tardezinha obtusa e habitado por todas as amigas e os amigos de infância, brincando com tudo o que agora já não se brinca.

Para isso, deve-se usar a tristeza para decifrar o próprio silêncio. Saber que se pode produzir com ela manhãs, quintais, sonhos, delírios. Isso é poesia. É costurar a si mesmo. Reparar com retalhos as partes rasgadas do corpo, pra um dia virar um bicho, embora remendado, colorido, resistente, encantador.

Manuel de Barros (1916-2014), poeta mato-grossense, em sua primeira infância, diz como certa vez transformou um castigo, pretenso causador de dor, em poesia:

PARRREDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
– Corumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte  a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu para decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
-Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas de Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão
– Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

 

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: as infâncias de Manoel de Barros / iluminuras de Martha Barros. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.


Douglas Alexandre é um diplomata em formação, e um formador em erudição, diretamente das periferias da moradia estudantil. Para conhecer mais:

Blog: http://bordeldasideias.blogspot.com.br/

 

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Realidade virtual é mato

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Texto de Danilo Malabrito

Confesso que desde a primeira vez que ouvi falar em “drones”, já aumentou bastante o meu medo do futuro. Talvez porque os conheci justamente em uma notícia que dizia serem usados em operações militares. Para matar pessoas. Confesso que agora já não sei nem o que é mais doído, a atrocidade em si ou a frieza ao escrever isso num texto.

É aquela coisa. A tecnologia é criada pro bem e o homem dá um jeito de pecá-la, ou é criada já pro pecado, e o homem acaba dando um jeito de usá-la pro bem? O ser humano é mau por natureza então corrompe a sociedade, ou nasce bom e é corrompido por ela? O biscoito é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Dúvidas que a gente leva pro túmulo.

Mas este texto não é sobre drones nem sobre desgraças nem sobre pecados. Hoje em dia tá na moda a VR: “Virtual Reality”. Realidade virtual, pra nós que usamos chinelos. A busca pela imitação da realidade, pensa só. Sei que os usos dessa inovação são inúmeros, maiores no entretenimento. Imitar a realidade pra se sentir mais vivo… Os dilemas da vida, né.

Claro, eu sei que é o andamento natural da tecnologia. Eu sei que é inevitável essas coisas. O progresso é um fato, tipo os drones. E as dúvidas. Não, não é que eu ache que os óculos de realidade virtual, por exemplo, vão ser usados por militares para matar pessoas. Se bem que sei lá também, a cada inovação, falta menos quilômetros pra chegar em White Bear (se você ainda não viu “Black Mirror”, para tudo e começa já!). Mas eu disse que o texto não era sobre pecados.

Mas e o Saramago? O Saramago tá aqui porque é autoridade no assunto desse texto. Esses dias tava lendo um livro de entrevistas com ele e sua esposa, a Pilar. Daí que um trecho lá me fez ficar pensando como é louco isso que a gente tem de querer imitar tudo, e desvendar tudo, e como isso é quase sempre de um jeito mais mecanizado, mais morto.  A gente quer entender o mundo às vezes de uma forma violenta com nossa humanidade. Tô falando do apagamento dos sonhos. Juro que não tenho nada contra o avanço tecnológico, é lógico. É só que quando penso nos rumos que a gente pode tomar…

No “Eu, Robô” (o livro, lá de 1950), tem uma frase assim: “De agora em diante, todos os conflitos humanos são evitáveis. Apenas as máquinas são inevitáveis”.

Mas o quanto a gente tem que se deletar pra abrir espaço pra máquina? A resposta é que.

Saramago. Tem um trecho da entrevista em que ele faz uma senhora revelação. O mestre em realidade virtual com as distopias de seus livros diz que essa tecnologia já existe há milênios, acredite ou não.

Com todo respeito às verdades que os homens procuram pra amaciar os pecados que cultivam, meu sonho favorito é um que eu saía gritando na rua “parem de assassinar mistérios!!!”. E eu nem sabia mais se acordava.

Costumo dizer que, depois de Deus, sonhar é o maior mistério que não precisa de resposta.

O sonho é uma espécie de realidade virtual. A realidade virtual não foi inventada ontem, o homem das cavernas já sabia o que era a realidade virtual… porque sonhava.

Portanto não me venham cá com histórias… Ai! a realidade virtual! Ui!… Isso é tão velho como o mundo.

Estamos a viver no sonho coisas como se elas existissem – estão dentro da nossa cabeça simplesmente. É como se viajássemos para dentro de nossa cabeça e vivêssemos aquilo que está lá.

Antes, não lhe podíamos chamar realidade virtual, porque o conceito não existia. Chamávamos-lhe apenas sonho.

E a verdade é que nós dormimos mas o cérebro não dorme. Portanto dos dados da experiência, da consciência e do que pode recordar, o cérebro organiza histórias.

O cérebro não dorme, aliás, nada dorme. O coração tampouco dorme, o sangue flui. Todas essas células, tudo isso, a bicharada que está dentro de nós não para.

O sangue tem de chegar ao cérebro, a toda a parte, e lá tem os seus caminhos, as suas comportas, os seus diques, os seus canais de comunicação. É assim, pá…

FONTE: MENDES, Miguel Gonçalvez. José e Pilar: conversas inéditas. São Paulo, Cia das Letras, 2012, p. 21.


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas. Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Pablo Neruda: I Love Batata Frita

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Texto de Danilo Lago

Confesso e confesso e confesso.

Foi mais forte do que eu. Sempre é. Sou culpado. Ainda mais que elas estavam ali, no cantinho da mesa. Fresquinhas, sequinhas, indefesas. E com alho.

A saborosa simplicidade da terra moscando na minha frente. O perfume excitante, a textura crocante, o bronzeado da pele. E sal pra equilibrar o caos do paladar.

Dizem que são francesas, belgas. São acompanhamentos, acompanhadas. Um simples vegetal, produto nobre. Se come com talher, com os dedos. Tanto faz. Nada disso importa. Pra mim, elas são brasileiras. E reticências. Banquete das ruas.

Mas a carne é farsa. Ainda sou culpado. Não aguentei. Nunca aguento. Acho que nunca vou aguentar. Sem arrependimentos. Lombriga é mato, moscou lambeu o prato.

A minha irmã já tinha avisado, não come, heim, esse restinho é meu, cê já comeu quase tudo, mó zoião.

Concordei com ela. Balancei a cabeça, fingi não fazer questão. Continuei mastigando o meu filé de frango, grelhado, com orégano.

Ela acreditou, mastigava como se o mundo fosse uma canção do Marcelo Jeneci. E se esqueceu de si.

Mirei bem o garfo, dei um tiro certeiro e arrastei o resto das batatinhas pra minha boca. Uma delícia. Confesso. Ô coisa gostosa. Confesso. Queria mais. Confesso. Muito mais.

Ela ficou brava. Não demorou muito, deixou pra lá. Só mandou eu me ferrar, seu fominha do caramba, zóião, parece que passa fome, qué isso, pelo amor.

Lembrei disso por causa de um poeminha do Pablo Neruda, no livro Navegações e Regressos. Pelo jeito, ele também era do tipo que disputava as últimas batatinhas da mesa.

ODE ÀS BATATAS FRITAS

Crepita

no azeite

fervendo

a alegria

do mundo:

as batatas

fritas

entram

na frigideira

como nevadas

plumas

de cisne matutino

e saem

semidouradas pelo crepitante

âmbar das olivas.

O alho

lhes acrescenta

sua terrena fragrância,

a pimenta,

pólen que atravessou os recifes,

e

revestidas

de novo

com traje de marfim, enchem o prato

com a repetição de sua abundância

e sua saborosa simplicidade da terra.

Fonte: Neruda, Pablo. Navegações e regressos. São Paulo: Mediafashion, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

Patativa do Assaré: Saudade é canto magoado

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Texto de Danilo Lago

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente

O suspiro da ausência rasga os ponteiros do relógio. É o que sinto ao ler esse verso parido no sertão do nordestino coração de Patativa do Assaré. Poesia que encabula os meus verbos, transformando os meus trincados suspiros em magoados sentimentos. É poesia feita com o silêncio do corpo calejado, debaixo do sol forte, a enxada pesando nos ombros, os joelhos rezando por chuva. É um grito contra a opressão do mundo dos homens e uma rasteira ao dos deuses. É a Saudade feita coisa.

Meu nordestino avô, Agnelo, se foi na semana passada, antes do combinado. Daí, meu suspiro de ausência. Ele adorava a poesia do Patativa do Assaré, embora nunca tivesse adquirido nenhum livro sequer do poeta. Conhecia as poesias de ouvido, pela força da tradição oral.

Pelejei pra conseguir encontrar o livro Ispinho e Fulô, até que encontrei um exemplar no sebo do messias, no centro de São Paulo. É difícil acreditar que pra conseguir qualquer livro de um dos poetas mais populares do Brasil é necessário enfrentar tamanha dificuldade.

Com o livro em punho, fui até a casa do meu avô. Passamos horas, ou as horas passaram, não sei direito, comungando daquelas poesias. Uma tarde inesquecível e inventada. Eu lhe disse que queria ser escritor, ele ficou me olhando, olhando, fechou os olhos e escapou algumas palavras:

– Escrever é um ofício bom, viu, apesar de ser uma peleja danada pra escolher as palavra. Tem que pensá muito antes de bota a palavra no papel. Você sabia que pra ser escritor tem que ter uma estrela no coração?

SAUDADE

Saudade dentro do peito

É qual fogo de monturo,

Por fora tudo perfeito,

Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa

Sem dó e sem piedade,

Porém não há dor que doa

Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio

Pra quem na vida gozou,

É um grande saco cheio

Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente.

A saudade é jardineira

Que planta em peito qualquer

Quando ela planta cegueira

No coração da mulher,

Fica tal qual a frieira

Quanto mais coça mais quer.

Fonte: ASSARÉ, Patativa. Ispinho e Fulô. São Paulo. Hedra, 2005.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

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João Cabral: a escrita meio-de-campo

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Texto de Danilo Malabrito

Quem lê a poesia de João Cabral de Melo Neto logo pode observar que o poeta é um mediador do olhar de trás das vistas. É com técnica e sutileza que ele desvenda em palavras a dor de cabeça das coisas.

Dizia ele que ter lido pela primeira vez o livro “Alguma Poesia”, de Drummond, aos 17 anos, foi o fator responsável por inicia-lo nessa jornada sem fim que é ser poeta. Mas arrisco dizer que um fator anterior foi fundamental pra composição de seu estilo: o instinto meio-campo.

Para os apreciadores do futebol, não é preciso dizer como o esporte respinga poesia, seja pela dança de um drible, pelo traço de um passe, pelo drama da defesa, o choro de frente com a festa, ou por elementos que transcendem o jogo em si.

Dentro dos gramados, é fato que os maiores poetas atuam geralmente na posição de meio-campo. Capazes de dar uma aspirina pra um jogo febril, são eles quem geralmente fazem jogadas que extraem flores do concreto, entortando passos, rabiscando zagas e desenhando esperanças, por mais bruta que uma partida esteja. Nunca me esqueço de uma frase do eterno mestre Telê Santana: “o passe é um gesto de amizade”. É preciso cuidar bem do enlace pra que se termine em gol.

Certamente, o instinto meio-campo continuou a coabitar João Cabral de Melo Neto mesmo após a aposentadoria precoce de sua primeira carreira. Pois pois! Nosso poeta não só era um apreciador do futebol como já foi mesmo jogador, chegando a ser campeão juvenil, aos 16 anos, como meia pelo Santa Cruz, time mais que tradicional de Recife, ainda que seu coração fosse América (coisas do futebol). Graças à sorte, ele não seguiu carreira e pudemos conhecer toda sua produção literária como tal. Imagina só como seria se ele fosse junto o poeta que foi e o jogador que podia ser? Que música será que ele ia pedir no fantástico depois de fazer um hat-trick, hein…

Mas assim como a poesia e assim como a vida, o futebol-arte, literalmente falando, não é apenas sobre a beleza das imagens. É também sobre ritmo, sobre entender percursos, tanto dos corpos, quanto dos dias. Sobre quando o sublime atinge um sofrimento. Ele ensina a conhecer a perda e descobrir a ausência. E, é claro, a apreciar presenças.

Futebol-arte é sobre não olhar relógios mesmo sabendo de nosso limite de tempo.

Cabral, como um bom poeta, sabia de todas essas coisas e as traduziu nos poemas que fez sobre esse esporte, nos dando passes certeiros. “Ademir da Guia”, “A Ademir Menezes”, “O Futebol Brasileiro Evocado da Europa” são alguns deles. Mas eu gostaria de destacar o poema “O Torcedor do América F.C.”, que pode ser o torcedor dos vários Américas que temos pelo Brasil, o torcedor de todos os chamados times pequenos ao longo do mundo todo, que conseguem eternizar suas conquistas na raridade de suas obras (Leicester FC que o diga!).

Nesse mundo em que a vitória significa a desumanização pela submissão às regras do capital, ele nos lembra o barato que é ser um perdedor.

 

O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C

O desábito de vencer

não cria o calo da vitória

não dá à vitória o fio cego

nem lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

pele sensível, núbil, nova,

ácida à língua qual cajá,

salto do sol no cais da Aurora.

 

Fonte: MELO NETO, João Cabral de. Museu de Tudo. Alfaguarda Brasil, 2009 (1ª edição publicada em 1975).


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas.Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Feliz dia dazamiga e dozamigo!

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Texto de Maria Karina

Às vezes a gente deita na cama e fica pensando em como tem sorte de conhecer uma galera incrível. Agradece a todas as entidades divinas, desde os deuses do Olimpo até os pokémons.

Tem também aquele povo que a gente morre de vontade de ser amigo de infância. Sabe aquelas pessoas que você pensa “maaaano, que lindaaaaa, quero andar com ela no recreio” e ai sai curtindo todas as fotos, postagens e vira aquela stalker maluca? E quando ela curte ou compartilha alguma postagem sua e você quase cai da cadeira e fica gritando É PENTAAAAAAA  É PENTAAAAAAAA. Então, acontece.

Depois de passada a euforia você fica lá conversando com suas lantejoulas para maneirar um pouco a dose, tentar se comportar senão vai parecer uma psicopata. Pensa nas suas autoras favoritas e conclui “elas nunca seriam minhas amigas”, coloca a mão no coração e começa BATATINHA QUANDO NASCE (parei).

A questão é que você não imagina cada história divertida de escritoras(es) quando gostam de alguém pra ser amigue de infância. Até Clarice Lispector, que sustentava aquele olhar de quem estava só de férias no mundo e por isso mesmo não era obrigada a nada, já deixou a timidez em casa e foi com tudo pra cima da artista Djanira da Motta. Repara nesse trecho de uma entrevista feita pela nossa deusa das palavras e diz se não tá na cara que Clarice seria stalker fácil da Djanira no facebook:

Como não amar Djanira, mesmo sem conhecê-la pessoalmente? Eu já amava o seu trabalho, e quanto – e quanto. Mas quando se abriu a porta e eu a vi – parei e disse:

– Espere um pouco, quero ver você.

E vi – eu vi mesmo – que ela ia ser minha amiga. Ela tem qualquer coisa nos olhos que dá a ideia de que o mistério é simples. Não estranhou o fato de eu ficar olhando para ela, até eu dizer:

– Pronto, agora já conheço você e posso entrar.

Djanira tem a bondade no sorriso e no resto, mas não uma bondade morna. Nem é uma bondade agressiva. Djanira tem em si o que ela dá no seu trabalho. É pouco isso? Nunca, isso é tudo. Isso é a veracidade do ser humano dignificado pela simplicidade profunda que existe em trabalhar.

Sentamo-nos, eu sem tirar os olhos do rosto dela, ela me examinando com bondade, sem me estranhar nem um pouco.

Não se deve escrever Djanira e sim DJANIRA.

– Djanira, você é uma criatura fechada. E eu também. Como vamos fazer? O jeito é falar a verdade. A verdade é mais simples que a mentira.

Ela me olhou profundamente. E eu continuei, com esse tipo de timidez que sempre foi a minha:

– Eu quero saber tudo a seu respeito. E cabe a você selecionar o seu tudo, pois não quero invadir sua alma. Quero saber por que você pinta e quero saber por que as pessoas pintam. Quero saber que é que você faria em matéria de arte se não fosse pintura. Quero saber como é que você foi andando a ponto de se chamar Djanira. E quero a verdade, tanto quanto você possa dar sem ferir-se a si própria. Se você quiser me enganar, me engane, pois não quero que nenhuma pergunta minha faça você sofrer. Se você saber cozinhar, diga, porque tudo o que vier de você eu quero.

– A gente pinta como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que pinta.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Entrevistas. Rio de Janeiro. Rocco, 2007.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

Polêmica: Rubem Alves favorável à eutanásia

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Texto de Maria Karina

Apesar de a eutanásia ser uma prática que vem desde a Grécia e Roma antigas, o assunto ainda é um grande tabu. São poucos os países que permitem o procedimento, que se trata, basicamente, do auxílio médico direto para provocar a morte de um paciente em determinado estado de saúde. Existe também o suicídio assistido, nesse caso, a própria pessoa tem facilitado o acesso à droga letal, mas não pode ter ajuda de terceiros na execução. Ambos procedimentos para serem autorizados exigem alguns requisitos importantes, como a lucidez do paciente e a comprovação do grave quadro clinico.

Recentemente o assunto voltou a ser discutido através do filme “Me before you” (Como eu era antes de você, em tradução brasileira), que conta a história de um rapaz que sofre um acidente e fica tetraplégico, o que decai drasticamente a sua qualidade de vida, pois além da perda de quase toda sua capacidade motora, sua imunidade reduz cada vez mais. A história apresenta muitos estereótipos, o rapaz rico, a moça pobre, uma paixão de temporada. A trama, no entanto, centra-se na decisão do rapaz pela eutanásia. Será que ao se apaixonar ele poderá mudar de ideia?

Outro filme que tratou do assunto e foi alvejado de boas críticas, concorreu (e venceu) diversos prêmios, foi Menina de ouro. Nele, conta-se a história de uma lutadora de boxe incrivelmente determinada e talentosa, que tem a medula espinhal lesionada durante uma luta – e assim como no caso do filme mencionado acima, perde praticamente toda sua capacidade motora, precisa lidar com amputação, entre outros problemas. A grande polêmica gerada pelo filme foi justamente a decisão dela de morrer, porque ela nunca mais subiria no ringue. O ringue era a vida dela. Era seu propósito. O fato de seu chefe, como ela o chamava, ter feito isso sem o aval de autoridades atiçou as fogueiras da nossa idade média moderna. Mas ele realizou o pedido dela. A decisão não foi fácil, afinal, ele a amava. Como aceitar esse desejo de morte de alguém que amamos?

E é nesse barulho que surgem as preciosas palavras do multifacetado Rubem Alves, o velhinho eterno jovem que nos deixou há pouco tempo. No livro Desfiz 75 anos, Rubem escreveu um texto entitulado justamente “Eutanásia”, em que se posiciona claramente favorável ao procedimento, por uma questão ética. A ética conceituada por Albert Camus. Aproveitem alguns trechos:

Sempre que se fala em eutanásia seus opositores invocam razões éticas e teológicas. Dizem que a vida é dada por Deus e que, portanto, somente Deus tem o direito de tirá-la. Eutanásia é matar uma pessoa e há um mandamento que proíbe que isso seja feito. Assim, em nome de princípios universais, permite-se que uma pessoa morra em meio ao maior sofrimento.

Pois eu afirmo: sou a favor da eutanásia por motivos éticos. Albert Camus, numa frase bem curta, disse que, se ele fosse escrever um livro sobre ética, 99 páginas estariam em branco e na última página estaria escrito “amor”.

Todos os princípios éticos que possam ser inventados por teólogos e filósofos caem por terra diante dessa pequena palavra: “amar”. Deus é amor.

O amor, segundo os textos sagrados, é fazer aos outros aquilo que desejaríamos que fosse feito conosco, numa situação semelhante.

Amo os cães e já tive dezenas. Muitos deles eu mesmo levei ao veterinário para que lhes fosse dado o alívio para o seu sofrimento. Fiz isso porque os amava, eram meus amigos, queria o bem deles. E eu gostaria que fizessem o mesmo comigo, se estivesse na sua situação de sofrimento.

Defender a vida a todo custo! De acordo. É a filosofia de Albert Schweitzer e a filosofia de Mahatma Gandhi: reverência pela vida. Tudo o que vive é sagrado e deve ser protegido.

Mas o que é a vida? Ouço os bem-te-vis cantando: eles estão louvando a beleza da vida. Vejo as crianças brincando: elas estão gozando as alegrias da vida. Vejo os namorados se beijando: eles estão experimentando os prazeres da vida. Que tudo se faça para que a vida se exprima na exuberância da sua felicidade! Para isso todos devem ser feitos.

Mas eu pergunto: a vida não será como a música? Uma música sem fim seria insuportável. Toda música quer morrer. A morte é parte da beleza da música. A manga pendente num galho: tão linda, tão vermelha. Mas o tempo chega quando ela quer morrer. A criança brinca o dia inteiro. Chegada a noite, ela está cansada. Ela quer dormir. Que crueldade seria impedir que a criança dormisse quando o seu corpo quer dormir.

A vida não pode ser medida por batidas de coração ou ondas elétricas. Como um instrumento musical, a vida só vale a pena ser vivida enquanto o corpo for capaz de produzir música, ainda que seja a de um simples sorriso.

Fonte: ALVES, Rubem. Desfiz 75 anos. Campinas. Papirus, 2009.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

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Drummond: A brincadeira como revolução

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Texto de Danilo Lago

Infectados pelo vírus da guerra. A saliva é pólvora, o olhar escopeta. Nos matamos em cada esquina, em cada diálogo sepultado, em discussões que poderiam ser finalizadas com apertos de mão. Mas os revólveres sempre estão engatilhados.

Olho por olho, dente por dente, horizontes amputados. Em meio a tal cenário bélico, abrir um livro é um ato revolucionário. E eu o abri bem numa crônica subversiva, numa guerrilha de palavras, chamada “Vamos brincar”.

Nela, o poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade faz apologia de um dos maiores atos revolucionários da vida: Brincar. Nunca se esqueçam, as brincadeiras são perigosas:

E adotemos não somente os jogos com fumaças cerebrais, que estão na moda, mas também a amarelinha, o chicote-queimado, o tempo-será, a gata-parida, ocupações deliciosas que tiram todo o tempo e prazer de guerrear.

Fonte: Andrade, Carlos Drummond de. De notícias e não notícias faz-se a crônica. Rio de Janeiro. Record, 2007.


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Drummond: Pelo fim do xingamento animal

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Texto de Danilo Lago

Quem nunca xingou o chato do irmão, o namorado machista, o juiz desatento, com o nome de algum inocente animalzinho, tipo: “Ele é um cachorro sem vergonha”, “você é burro, heim”, “ô, seu jumento”.

É zuado, é decadente, é burrice (ops, foi mal), mas várias vezes roubamos os nomes dos animais para apontarmos as nossas deficiências.
Calma, nem tudo está perdido.

Fazendo justiça aos nomes dos animais, o poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade, na crônica “Modos de xingar”, apresenta-se como um grande militante da luta contra a profanação dos nossos irmãos e irmãs animais, se liga só:

Jamais aprovei o uso indevido de nomes de animais para qualificar ou verberar deficiências intelectuais ou morais do próximo. A injustiça feita ao cachorro, alçado “cachorrão”, como sinônimo de mau-caráter, dói e revolta. A zebra não é responsável pelo baixo QI de seres humanos, nem o camelo tampouco. Burro, burróide, besta, bestalhão, jumento: outros exemplos de impropriedade vocabular, que não recomendam a linguagem crítica. Irracionais prestantes, muitas vezes providos de razão prática luminosa, não costumam, que eu saiba, xingar os de sua espécie com invectivas desta ordem:

– Homem!

– Homúnculo!

– Reverendíssimo homem!

Fonte: Andrade, Carlos Drummond de. De notícias e não notícias faz-se a crônica. Rio de Janeiro. Record, 2007. (pág. 92).


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

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