beleza

João Antônio: A boa literatura

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Texto de Danilo Lago

Sempre que vejo uma tampinha moscando no asfalto, na mudeza da noite, me lembro de João Antônio.

Daí uma tristeza leve, beliscando a alma, se aflora. Embaralha a memória, botando do meu lado, aqui dentro, sob a mesma luz mercúrio, certo aluado, personagem do conto Afinação da Arte de Chutar Tampinhas.

Sou um cara que trabalha muito mal. Assobia sambas do Noel com alguma bossa. Agora, minha especialidade, meu gosto, meu jeito mesmo, é chutar tampinhas da rua. Não conheço chutador mais fino.

E tenho escutado especialistas falando sobre o que é boa literatura, conceitos, teorias, teoremas, a porra toda. Nada contra. Entra por um ouvido, sai por outro. Não sou bom aluno. Às vezes fica uma cerinha de canto, coçando, roçando. Logo meto o cotonete.

Boa literatura, boa literatura mesmo, boa literatura pra mim, coisa de pouca significância, é caminhar numa sexta-feira machucada sobre um asfalto garoado e não saber se estou num conto que li recentemente ou se o conto está em mim.

A bem da verdade, pois sou um homem de verdades fracassadas, foda-se. Só queria ser o melhor chutador de tampinhas daquela rua, daquela tristeza, daquele desjeito com a vida. Sentir algum rastro de beleza escondida.

Só o barulho da borracha no chute e depois o barulho da tampinha aterrissando. E um depois do outro, os dois se procuram, os dois se encontram, se juntam os dois, se prendem, se integram, amorosamente. É preciso sentir a beleza de uma tampinha na noite, estirada na calçada. Sem o quê, impossível entender meu trabalho.

Fonte: Antônio, João. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

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