Destruam os castelos

clarice-ano-novo

Texto de Maria Karina

Alunas e alunos, nos meus textos não cabem seus elogios. Saibam, porém, que todos eles mantiveram meu pavio respirando. Na vida, nem todas as promessas podem ser cumpridas. Não vou me desculpar, nem por isso nem pela minha gramática. Se eu puder ensinar alguma coisa, que seja: para construir um castelo é preciso usar muito, muito espaço alheio, então, prefiram ocas. Busquem abrigo no pedaço do corpo que diz que nosso bem estar se manifesta quando temos tudo aquilo que não é do outro. Não há luxo maior.

Apesar de parecer, este texto não tem a intenção de ser uma lição de vida, de moral, até porque estou me encontrando, ou me perdendo, o tempo todo. Talvez eu tenha experimentado um bocado a mais de dores, mas ainda não aprendi a levantar todas as vezes feito um cavalo novo.

Para dar alguma substância a esse monte de palavras metade cheias, metade vazias, ofereço a carta da jovem Clarice. Numa data não muito distante dos fogos, ela mostra que não adianta inventar nascimento, porque as rasteiras não escolhem idade. Pode parecer clichê, pode parecer autoajuda, mas se tem alguma coisa certa na vida é dizer que nenhum peito esburacado consegue fazer respirar fariseus. Não digo que não seja necessário ser rude consigo mesmo, só que é preciso saber que não é à toa que a cor da sorte cheira euro-dólar com pitadas de real. Cuidem bem de si mesmos, mas também cuidem a cor que vão vestir na virada.

[A Tania Kaufmann]

Berna, 6 janeiro 1948

Minha florzinha,

recebi sua carta desse estranho Bucsky, datada de 30 de dezembro. Como fiquei contente, minha irmãzinha, com certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há muita coisa viva em mim. Mas não, minha querida! Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você. Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo. Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos levar de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? assim fiquei eu…, em que pese a dura comparação… Para me adatar (sic) ao que era inadatável (sic), para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus aguilhões – cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que nos leve de volta, só a ideia de ver você e de retomar um pouco minha vida – que não era maravilhosa mas era uma vida – eu me transforme inteiramente. Mariazinha, mulher de Milton, um dia desses encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que está irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lassidão de uma mulher de cinquenta anos. Tudo isso você não vai nem sentir, queira Deus. Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então… Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – esse é o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece um moral imoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber – pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade da alma. Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer o que você deseja – seja sair dos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras – porque como poderíamos fazer bem uma e outra sem esse mínimo de sinceridade?

Que o ano novo lhe traga todas as felicidades, minha querida. Receba um abraço de muita saudade, de enorme saudade da sua irmã

Clarice

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro. Rocco, 2002


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

Um bucado de tristeza pra poesia sambar

manoel-2

Texto de Douglas Alexandre

– Oxe! Como assim? Tristeza é quando a gente sofre. Fica triste e tal. Não quer sair do quarto. Fica lá ouvindo música. Pensa na vida, na infância. Que pergunta difícil.

Caminha, de mãos pensas, numa avenida cinzenta e asfaltada, sem sentido, longa de imensos quilômetros, debaixo do sol. Ao seu cabo, esbarra num gigantesco muro branco que esconde o céu e todo o resto do mundo atrás de si. Neste muro, há uma porta escura, de madeira, com uma placa pendurada na maçaneta: “Trouxeste a chave? ”.

Às vezes, atrás da porta, a gente pode encontrar o resto da rua, que continuaremos trilhando em direção a outras portas, outras maçanetas, outras chaves caídas na estrada. Amiúde, ao abrir com esperança, de mãos trêmulas, daremos de cara com a sala de casa, com os mesmos rostos, o mesmo solo, o mesmo teto que ora oprime, ora aconchega. Mas quando tropeçarmos na chave certa, atrás da porta estará o tão esperado quintal, envolto por uma eterna tardezinha obtusa e habitado por todas as amigas e os amigos de infância, brincando com tudo o que agora já não se brinca.

Para isso, deve-se usar a tristeza para decifrar o próprio silêncio. Saber que se pode produzir com ela manhãs, quintais, sonhos, delírios. Isso é poesia. É costurar a si mesmo. Reparar com retalhos as partes rasgadas do corpo, pra um dia virar um bicho, embora remendado, colorido, resistente, encantador.

Manuel de Barros (1916-2014), poeta mato-grossense, em sua primeira infância, diz como certa vez transformou um castigo, pretenso causador de dor, em poesia:

PARRREDE!

Quando eu estudava no colégio, interno,

Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
– Corumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte  a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu para decorar o Sermão da Sexagésima
de Vieira.
-Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas de Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão
– Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.

 

Barros, Manoel de. Memórias Inventadas: as infâncias de Manoel de Barros / iluminuras de Martha Barros. – São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.


Douglas Alexandre é um diplomata em formação, e um formador em erudição, diretamente das periferias da moradia estudantil. Para conhecer mais:

Blog: http://bordeldasideias.blogspot.com.br/

 

João Antônio: A boa literatura

14501970_343909599274677_2007551690_n

Texto de Danilo Lago

Sempre que vejo uma tampinha moscando no asfalto, na mudeza da noite, me lembro de João Antônio.

Daí uma tristeza leve, beliscando a alma, se aflora. Embaralha a memória, botando do meu lado, aqui dentro, sob a mesma luz mercúrio, certo aluado, personagem do conto Afinação da Arte de Chutar Tampinhas.

Sou um cara que trabalha muito mal. Assobia sambas do Noel com alguma bossa. Agora, minha especialidade, meu gosto, meu jeito mesmo, é chutar tampinhas da rua. Não conheço chutador mais fino.

E tenho escutado especialistas falando sobre o que é boa literatura, conceitos, teorias, teoremas, a porra toda. Nada contra. Entra por um ouvido, sai por outro. Não sou bom aluno. Às vezes fica uma cerinha de canto, coçando, roçando. Logo meto o cotonete.

Boa literatura, boa literatura mesmo, boa literatura pra mim, coisa de pouca significância, é caminhar numa sexta-feira machucada sobre um asfalto garoado e não saber se estou num conto que li recentemente ou se o conto está em mim.

A bem da verdade, pois sou um homem de verdades fracassadas, foda-se. Só queria ser o melhor chutador de tampinhas daquela rua, daquela tristeza, daquele desjeito com a vida. Sentir algum rastro de beleza escondida.

Só o barulho da borracha no chute e depois o barulho da tampinha aterrissando. E um depois do outro, os dois se procuram, os dois se encontram, se juntam os dois, se prendem, se integram, amorosamente. É preciso sentir a beleza de uma tampinha na noite, estirada na calçada. Sem o quê, impossível entender meu trabalho.

Fonte: Antônio, João. Contos reunidos. São Paulo: Cosac Naify, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

Realidade virtual é mato

jose-saramago1

Texto de Danilo Malabrito

Confesso que desde a primeira vez que ouvi falar em “drones”, já aumentou bastante o meu medo do futuro. Talvez porque os conheci justamente em uma notícia que dizia serem usados em operações militares. Para matar pessoas. Confesso que agora já não sei nem o que é mais doído, a atrocidade em si ou a frieza ao escrever isso num texto.

É aquela coisa. A tecnologia é criada pro bem e o homem dá um jeito de pecá-la, ou é criada já pro pecado, e o homem acaba dando um jeito de usá-la pro bem? O ser humano é mau por natureza então corrompe a sociedade, ou nasce bom e é corrompido por ela? O biscoito é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Dúvidas que a gente leva pro túmulo.

Mas este texto não é sobre drones nem sobre desgraças nem sobre pecados. Hoje em dia tá na moda a VR: “Virtual Reality”. Realidade virtual, pra nós que usamos chinelos. A busca pela imitação da realidade, pensa só. Sei que os usos dessa inovação são inúmeros, maiores no entretenimento. Imitar a realidade pra se sentir mais vivo… Os dilemas da vida, né.

Claro, eu sei que é o andamento natural da tecnologia. Eu sei que é inevitável essas coisas. O progresso é um fato, tipo os drones. E as dúvidas. Não, não é que eu ache que os óculos de realidade virtual, por exemplo, vão ser usados por militares para matar pessoas. Se bem que sei lá também, a cada inovação, falta menos quilômetros pra chegar em White Bear (se você ainda não viu “Black Mirror”, para tudo e começa já!). Mas eu disse que o texto não era sobre pecados.

Mas e o Saramago? O Saramago tá aqui porque é autoridade no assunto desse texto. Esses dias tava lendo um livro de entrevistas com ele e sua esposa, a Pilar. Daí que um trecho lá me fez ficar pensando como é louco isso que a gente tem de querer imitar tudo, e desvendar tudo, e como isso é quase sempre de um jeito mais mecanizado, mais morto.  A gente quer entender o mundo às vezes de uma forma violenta com nossa humanidade. Tô falando do apagamento dos sonhos. Juro que não tenho nada contra o avanço tecnológico, é lógico. É só que quando penso nos rumos que a gente pode tomar…

No “Eu, Robô” (o livro, lá de 1950), tem uma frase assim: “De agora em diante, todos os conflitos humanos são evitáveis. Apenas as máquinas são inevitáveis”.

Mas o quanto a gente tem que se deletar pra abrir espaço pra máquina? A resposta é que.

Saramago. Tem um trecho da entrevista em que ele faz uma senhora revelação. O mestre em realidade virtual com as distopias de seus livros diz que essa tecnologia já existe há milênios, acredite ou não.

Com todo respeito às verdades que os homens procuram pra amaciar os pecados que cultivam, meu sonho favorito é um que eu saía gritando na rua “parem de assassinar mistérios!!!”. E eu nem sabia mais se acordava.

Costumo dizer que, depois de Deus, sonhar é o maior mistério que não precisa de resposta.

O sonho é uma espécie de realidade virtual. A realidade virtual não foi inventada ontem, o homem das cavernas já sabia o que era a realidade virtual… porque sonhava.

Portanto não me venham cá com histórias… Ai! a realidade virtual! Ui!… Isso é tão velho como o mundo.

Estamos a viver no sonho coisas como se elas existissem – estão dentro da nossa cabeça simplesmente. É como se viajássemos para dentro de nossa cabeça e vivêssemos aquilo que está lá.

Antes, não lhe podíamos chamar realidade virtual, porque o conceito não existia. Chamávamos-lhe apenas sonho.

E a verdade é que nós dormimos mas o cérebro não dorme. Portanto dos dados da experiência, da consciência e do que pode recordar, o cérebro organiza histórias.

O cérebro não dorme, aliás, nada dorme. O coração tampouco dorme, o sangue flui. Todas essas células, tudo isso, a bicharada que está dentro de nós não para.

O sangue tem de chegar ao cérebro, a toda a parte, e lá tem os seus caminhos, as suas comportas, os seus diques, os seus canais de comunicação. É assim, pá…

FONTE: MENDES, Miguel Gonçalvez. José e Pilar: conversas inéditas. São Paulo, Cia das Letras, 2012, p. 21.


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas. Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Pablo Neruda: I Love Batata Frita

pablo-neruda

Texto de Danilo Lago

Confesso e confesso e confesso.

Foi mais forte do que eu. Sempre é. Sou culpado. Ainda mais que elas estavam ali, no cantinho da mesa. Fresquinhas, sequinhas, indefesas. E com alho.

A saborosa simplicidade da terra moscando na minha frente. O perfume excitante, a textura crocante, o bronzeado da pele. E sal pra equilibrar o caos do paladar.

Dizem que são francesas, belgas. São acompanhamentos, acompanhadas. Um simples vegetal, produto nobre. Se come com talher, com os dedos. Tanto faz. Nada disso importa. Pra mim, elas são brasileiras. E reticências. Banquete das ruas.

Mas a carne é farsa. Ainda sou culpado. Não aguentei. Nunca aguento. Acho que nunca vou aguentar. Sem arrependimentos. Lombriga é mato, moscou lambeu o prato.

A minha irmã já tinha avisado, não come, heim, esse restinho é meu, cê já comeu quase tudo, mó zoião.

Concordei com ela. Balancei a cabeça, fingi não fazer questão. Continuei mastigando o meu filé de frango, grelhado, com orégano.

Ela acreditou, mastigava como se o mundo fosse uma canção do Marcelo Jeneci. E se esqueceu de si.

Mirei bem o garfo, dei um tiro certeiro e arrastei o resto das batatinhas pra minha boca. Uma delícia. Confesso. Ô coisa gostosa. Confesso. Queria mais. Confesso. Muito mais.

Ela ficou brava. Não demorou muito, deixou pra lá. Só mandou eu me ferrar, seu fominha do caramba, zóião, parece que passa fome, qué isso, pelo amor.

Lembrei disso por causa de um poeminha do Pablo Neruda, no livro Navegações e Regressos. Pelo jeito, ele também era do tipo que disputava as últimas batatinhas da mesa.

ODE ÀS BATATAS FRITAS

Crepita

no azeite

fervendo

a alegria

do mundo:

as batatas

fritas

entram

na frigideira

como nevadas

plumas

de cisne matutino

e saem

semidouradas pelo crepitante

âmbar das olivas.

O alho

lhes acrescenta

sua terrena fragrância,

a pimenta,

pólen que atravessou os recifes,

e

revestidas

de novo

com traje de marfim, enchem o prato

com a repetição de sua abundância

e sua saborosa simplicidade da terra.

Fonte: Neruda, Pablo. Navegações e regressos. São Paulo: Mediafashion, 2012.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

Vocês me desculpem, não vou falar de flores

na_varanda

Texto de Maria Karina

Não consigo lembrar a primeira vez que quis salvar o mundo, mas lembro muito bem quando sussurraram pra mim que eu tenho apenas duas mãos. Não que isso tenha ajudado. Aprendi que às vezes versar sentimentos é como um balanço na rede.

Esses dias tenho ensaiado possibilidades de apresentação para uma aula que darei ainda esse semestre. Pois é, tem gente que usa o banheiro pra ensaiar o canto e outras a atuação, eu uso pra ensaiar ser professora. A minha maior preocupação é ser pouca. E eu sou. Em todo lugar os camaradas já disseram que há uma guerra, que é necessário levar fogo e alimento. E vocês sabem como é grande o mundo.

Dói, porque me encarreguei de limpar o brilho. A gente não pode obrigar a importância do opaco, mas como ele é preciso. Mais que viver ou navegar. Depois que a gente desengana o sucesso é bobagem, a gente nem liga em andar nu e prefere depender de carona. Será que se eu levar o meme do “falta amor mas também falta interpretação de texto”, ajuda? Calma, não estou jogando na cara, isso aqui está uma bagunça e ninguém tem obrigação de entender. Mas falta, né? Ô se falta. Imagina todo mundo percebendo as farsas que nos golpeiam da televisão? Só sei que a estupidez não tem mesmo nada de engraçada.

Como pesam esses 2016 anos. Ando sendo orientada para o presente, mas a gente anda só se afastando dele. E eu também não cantarei o mundo futuro. Por que a gente não tem a mania das mãos dadas, heim? Vocês me desculpem, mas meu coração está parando de crescer. Não sei se posso criar vida para essas mulheres e homens presentes. Pode ser que tudo resulte Macabéa, com a diferença que somos malditos e sabemos que somos.

Apesar de também iniciada, não tenho conseguido respirar dentro das palavras que Fernando Sabino escreveu em uma das muitas cartas trocadas entre ele e Clarice Lispector, mas é questão de vida, ou isso ou me afundo:

[…] posso perceber uma coisa muito mais importante do conto: que você está escrevendo bem, com calma, estilo seguro, sem precipitação. Talvez porque agora você já não esteja sofrendo muito: o que é preciso é sofrer bem: é uma diferença bem importante, para a qual o Mário sempre me chamava a atenção. A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, com serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compreensão, mas um reflexo.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Correspondências. Rio de Janeiro. Rocco, 2002.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

Patativa do Assaré: Saudade é canto magoado

patativa_do_assare_02

Texto de Danilo Lago

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente

O suspiro da ausência rasga os ponteiros do relógio. É o que sinto ao ler esse verso parido no sertão do nordestino coração de Patativa do Assaré. Poesia que encabula os meus verbos, transformando os meus trincados suspiros em magoados sentimentos. É poesia feita com o silêncio do corpo calejado, debaixo do sol forte, a enxada pesando nos ombros, os joelhos rezando por chuva. É um grito contra a opressão do mundo dos homens e uma rasteira ao dos deuses. É a Saudade feita coisa.

Meu nordestino avô, Agnelo, se foi na semana passada, antes do combinado. Daí, meu suspiro de ausência. Ele adorava a poesia do Patativa do Assaré, embora nunca tivesse adquirido nenhum livro sequer do poeta. Conhecia as poesias de ouvido, pela força da tradição oral.

Pelejei pra conseguir encontrar o livro Ispinho e Fulô, até que encontrei um exemplar no sebo do messias, no centro de São Paulo. É difícil acreditar que pra conseguir qualquer livro de um dos poetas mais populares do Brasil é necessário enfrentar tamanha dificuldade.

Com o livro em punho, fui até a casa do meu avô. Passamos horas, ou as horas passaram, não sei direito, comungando daquelas poesias. Uma tarde inesquecível e inventada. Eu lhe disse que queria ser escritor, ele ficou me olhando, olhando, fechou os olhos e escapou algumas palavras:

– Escrever é um ofício bom, viu, apesar de ser uma peleja danada pra escolher as palavra. Tem que pensá muito antes de bota a palavra no papel. Você sabia que pra ser escritor tem que ter uma estrela no coração?

SAUDADE

Saudade dentro do peito

É qual fogo de monturo,

Por fora tudo perfeito,

Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa

Sem dó e sem piedade,

Porém não há dor que doa

Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio

Pra quem na vida gozou,

É um grande saco cheio

Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente.

A saudade é jardineira

Que planta em peito qualquer

Quando ela planta cegueira

No coração da mulher,

Fica tal qual a frieira

Quanto mais coça mais quer.

Fonte: ASSARÉ, Patativa. Ispinho e Fulô. São Paulo. Hedra, 2005.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

João Cabral: a escrita meio-de-campo

jcmn

Texto de Danilo Malabrito

Quem lê a poesia de João Cabral de Melo Neto logo pode observar que o poeta é um mediador do olhar de trás das vistas. É com técnica e sutileza que ele desvenda em palavras a dor de cabeça das coisas.

Dizia ele que ter lido pela primeira vez o livro “Alguma Poesia”, de Drummond, aos 17 anos, foi o fator responsável por inicia-lo nessa jornada sem fim que é ser poeta. Mas arrisco dizer que um fator anterior foi fundamental pra composição de seu estilo: o instinto meio-campo.

Para os apreciadores do futebol, não é preciso dizer como o esporte respinga poesia, seja pela dança de um drible, pelo traço de um passe, pelo drama da defesa, o choro de frente com a festa, ou por elementos que transcendem o jogo em si.

Dentro dos gramados, é fato que os maiores poetas atuam geralmente na posição de meio-campo. Capazes de dar uma aspirina pra um jogo febril, são eles quem geralmente fazem jogadas que extraem flores do concreto, entortando passos, rabiscando zagas e desenhando esperanças, por mais bruta que uma partida esteja. Nunca me esqueço de uma frase do eterno mestre Telê Santana: “o passe é um gesto de amizade”. É preciso cuidar bem do enlace pra que se termine em gol.

Certamente, o instinto meio-campo continuou a coabitar João Cabral de Melo Neto mesmo após a aposentadoria precoce de sua primeira carreira. Pois pois! Nosso poeta não só era um apreciador do futebol como já foi mesmo jogador, chegando a ser campeão juvenil, aos 16 anos, como meia pelo Santa Cruz, time mais que tradicional de Recife, ainda que seu coração fosse América (coisas do futebol). Graças à sorte, ele não seguiu carreira e pudemos conhecer toda sua produção literária como tal. Imagina só como seria se ele fosse junto o poeta que foi e o jogador que podia ser? Que música será que ele ia pedir no fantástico depois de fazer um hat-trick, hein…

Mas assim como a poesia e assim como a vida, o futebol-arte, literalmente falando, não é apenas sobre a beleza das imagens. É também sobre ritmo, sobre entender percursos, tanto dos corpos, quanto dos dias. Sobre quando o sublime atinge um sofrimento. Ele ensina a conhecer a perda e descobrir a ausência. E, é claro, a apreciar presenças.

Futebol-arte é sobre não olhar relógios mesmo sabendo de nosso limite de tempo.

Cabral, como um bom poeta, sabia de todas essas coisas e as traduziu nos poemas que fez sobre esse esporte, nos dando passes certeiros. “Ademir da Guia”, “A Ademir Menezes”, “O Futebol Brasileiro Evocado da Europa” são alguns deles. Mas eu gostaria de destacar o poema “O Torcedor do América F.C.”, que pode ser o torcedor dos vários Américas que temos pelo Brasil, o torcedor de todos os chamados times pequenos ao longo do mundo todo, que conseguem eternizar suas conquistas na raridade de suas obras (Leicester FC que o diga!).

Nesse mundo em que a vitória significa a desumanização pela submissão às regras do capital, ele nos lembra o barato que é ser um perdedor.

 

O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C

O desábito de vencer

não cria o calo da vitória

não dá à vitória o fio cego

nem lhe cansa as molas nervosas.

Guarda-a sem mofo: coisa fresca,

pele sensível, núbil, nova,

ácida à língua qual cajá,

salto do sol no cais da Aurora.

 

Fonte: MELO NETO, João Cabral de. Museu de Tudo. Alfaguarda Brasil, 2009 (1ª edição publicada em 1975).


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas.Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/

Lima Barreto e as mulheres

13866628_312780262387611_1381353667_n

Texto de Maria Karina

“É o fim dos tempos”

Você alguma vez já se perguntou quantos mil anos faz que essa expressão vem sendo usada? Eu acabo sempre pensando se ela vem coberta de ingenuidade ou ignorância. Talvez os dois, talvez nenhum. Tem gente que usa mesmo só para angariar medo.

Ela é bastante usada quando depois de casos de violência, principalmente os mais brutais, como o da jovem estudante indiana que teve as entranhas arrancadas à mão em um estupro coletivo, “porque” saiu à noite com um amigo para ir ao cinema.

Talvez seja isso.

Para as mulheres sempre foi “o fim dos tempos”.

É duro viver no ano de 2016 e ter que ler que uma mulher foi assassinada pelo ex ou atual alguma coisa por simplesmente romper a relação. Mais duro ainda é saber que não é uma, são várias, o tempo todo. A tia agredida, a prima estuprada, a amiga abusada. Você.

“É o fim dos tempos”, eles dizem. Lima Barreto, no entanto, já contou como esse “fim dos tempos” funciona lá em 1915. Isso mesmo, há 101 anos:

Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida, é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio, quand même, sobre a mulher.

O caso não é único. Não há muito tempo, em dias de carnaval, um rapaz atirou sobre a ex-noiva, lá pelas bandas do Estácio, matando-se em seguida. A moça com a bala na espinha veio a morrer, dias após, entre sofrimentos atrozes.

Um outro, também, pelo carnaval, ali pelas bandas do ex-futuro Hotel Monumental, que substituiu com montões de pedras o vetusto Convento da Ajuda, alvejou a sua ex-noiva e matou-a.

Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros.

Eles se julgam com o direito de impor o seu amor ou o seu desejo a quem não os quer. Não sei se se julgam muito diferentes dos ladrões à mão armada; mas o certo é que estes não nos arrebatam senão o dinheiro, enquanto esses tais noivos assassinos querem tudo que é de mais sagrado em outro ente, de pistola na mão. O ladrão ainda nos deixa com vida, se lhe passamos o dinheiro; os tais passionais, porém, nem estabelecem a alternativa: a bolsa ou a vida. Eles, não; matam logo.

Nós já tínhamos os maridos que matavam as esposas adúlteras; agora temos os noivos que matam as ex-noivas

De resto, semelhantes cidadãos são idiotas. É de supor que, quem quer casar, deseje que a sua futura mulher venha para o tálamo conjugal com a máxima liberdade, com a melhor boa vontade, sem coação de espécie alguma, com ardor até, com ânsia e grandes desejos; como e então que se castigam as moças que confessam não sentir mais pelos namorados amor ou coisa equivalente?

Todas as considerações que se possam fazer, tendentes a convencer os homens de que eles não têm sobre as mulheres domínio outro que não aquele que venha da afeição, não devem ser desprezadas.

Esse obsoleto domínio à valentona, do homem sobre a mulher, é coisa tão horrorosa, que enche de indignação. O esquecimento de que elas são, como todos nós, sujeitas, a influências várias que fazem flutuar as suas inclinações, as suas amizades, os seus gostos, os seus amores, é coisa tão estúpida, que, só entre selvagens deve ter existido. Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.

Deixem as mulheres amar à vontade.

Não as matem, pelo amor de Deus!

Vida urbana, 27-01-1915.

Fonte: BARRETO, Lima. Crônicas escolhidas Lima Barreto. São Paulo. Ática, 1995.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

Feliz dia dazamiga e dozamigo!

claclamigues

Texto de Maria Karina

Às vezes a gente deita na cama e fica pensando em como tem sorte de conhecer uma galera incrível. Agradece a todas as entidades divinas, desde os deuses do Olimpo até os pokémons.

Tem também aquele povo que a gente morre de vontade de ser amigo de infância. Sabe aquelas pessoas que você pensa “maaaano, que lindaaaaa, quero andar com ela no recreio” e ai sai curtindo todas as fotos, postagens e vira aquela stalker maluca? E quando ela curte ou compartilha alguma postagem sua e você quase cai da cadeira e fica gritando É PENTAAAAAAA  É PENTAAAAAAAA. Então, acontece.

Depois de passada a euforia você fica lá conversando com suas lantejoulas para maneirar um pouco a dose, tentar se comportar senão vai parecer uma psicopata. Pensa nas suas autoras favoritas e conclui “elas nunca seriam minhas amigas”, coloca a mão no coração e começa BATATINHA QUANDO NASCE (parei).

A questão é que você não imagina cada história divertida de escritoras(es) quando gostam de alguém pra ser amigue de infância. Até Clarice Lispector, que sustentava aquele olhar de quem estava só de férias no mundo e por isso mesmo não era obrigada a nada, já deixou a timidez em casa e foi com tudo pra cima da artista Djanira da Motta. Repara nesse trecho de uma entrevista feita pela nossa deusa das palavras e diz se não tá na cara que Clarice seria stalker fácil da Djanira no facebook:

Como não amar Djanira, mesmo sem conhecê-la pessoalmente? Eu já amava o seu trabalho, e quanto – e quanto. Mas quando se abriu a porta e eu a vi – parei e disse:

– Espere um pouco, quero ver você.

E vi – eu vi mesmo – que ela ia ser minha amiga. Ela tem qualquer coisa nos olhos que dá a ideia de que o mistério é simples. Não estranhou o fato de eu ficar olhando para ela, até eu dizer:

– Pronto, agora já conheço você e posso entrar.

Djanira tem a bondade no sorriso e no resto, mas não uma bondade morna. Nem é uma bondade agressiva. Djanira tem em si o que ela dá no seu trabalho. É pouco isso? Nunca, isso é tudo. Isso é a veracidade do ser humano dignificado pela simplicidade profunda que existe em trabalhar.

Sentamo-nos, eu sem tirar os olhos do rosto dela, ela me examinando com bondade, sem me estranhar nem um pouco.

Não se deve escrever Djanira e sim DJANIRA.

– Djanira, você é uma criatura fechada. E eu também. Como vamos fazer? O jeito é falar a verdade. A verdade é mais simples que a mentira.

Ela me olhou profundamente. E eu continuei, com esse tipo de timidez que sempre foi a minha:

– Eu quero saber tudo a seu respeito. E cabe a você selecionar o seu tudo, pois não quero invadir sua alma. Quero saber por que você pinta e quero saber por que as pessoas pintam. Quero saber que é que você faria em matéria de arte se não fosse pintura. Quero saber como é que você foi andando a ponto de se chamar Djanira. E quero a verdade, tanto quanto você possa dar sem ferir-se a si própria. Se você quiser me enganar, me engane, pois não quero que nenhuma pergunta minha faça você sofrer. Se você saber cozinhar, diga, porque tudo o que vier de você eu quero.

– A gente pinta como quem ama, ninguém sabe por que ama, a gente não sabe por que pinta.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Entrevistas. Rio de Janeiro. Rocco, 2007.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com