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As pétalas abertas da Revolução dos Cravos

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Texto de Maria Karina

Muitas obras criadas a partir de regimes totalitários são como a flor que rompe o asfalto – não a feia como cantou Carlos Drummond de Andrade –, a bela,  corada, valente, sofrida e arrebatadora flor. Assim são Levantado do chão e O Dia dos Prodígios, de José Saramago e Lídia Jorge, respectivamente. Romances não apenas inspirados a partir da Revolução dos Cravos como também deflagradores de outras revoluções. Envolve os leitores nas mais diversas paixões, levando-os do estado de incompreensão ao encantamento, de indignação à esperança.

Chorando as lágrimas de João Mau-Tempo quando cativo do Latifúndio ou as de Maria Adelaide diante da festa dos soldados floridos. Desiludindo-se como Jesuína Palha sem seus heróis ou reagindo como Branca quando regurgita a própria vida antes engolida pelas violências de José Pássaro, nascido “de pés”. Todos personagens das obras aqui experimentadas.

Dois escritores que trazem frescor e se rebelam contra o contexto literário da época. Ele reinventa, faz da grandeza parágrafos, traz fluidez e a língua dos lavradores. A pontuação é subversiva: vírgula em vez de pontos finais, porque a paisagem nunca acaba e letras maiúsculas em vez de travessão, porque a palavra é direito, não permissão. Coroa rei o narrador – que reflete, ironiza, conta o desfecho antes do fim, recua e avança assim do nada. Ela, ainda mais audaciosa, fez um romance bipolar, ora dramático ora lírico. Com uma narrativa polifônica, em que “a voz do povo é a voz de Deus”. O narrador um fiel com pouca autonomia. É preciso tomar cuidado com os desentendimentos, aqui também falta travessão e às vezes parece dia de feira, cabendo ao leitor ser mediador da confusão.

Ele fala de Monte Lavre e arredores, dos tempos maus e dos menos piores; ela nos leva até Vilamaninhos, rural cidade de pacatos cidadãos que só chamam atenção quando a cobra voa e a mula sorri a santa trindade. Ele faz contraposição do tempo em calendário católico. Ela contrapõe mundos, do desconhecido campo ao urbano notório. No chão dele andam muitos sapateiros descalços, mulheres caladas e trabalhadores plantando até o último suor para colher migalhas. No dia dela andam mulheres que gritam, outra que só sonha, umas donas de si e outra que só apanha, vários Josés e os  velhos surdos – sempre sentados.

Levantado do Chão é homem que se revolta ao ver lutar até cair pai e filho anônimos para divertimento dos donos do Latifúndio. São também formigas aos milhares que como cães levantam a cabeça para finalmente narrar suas versões e buscar o mínimo de dor, porque gozo não conhecem. São mais que ondas passageiras, são homens e mulheres que decidiram atravessar o mar e ocupar as colheitas, porque já não suportam que animais domésticos comam mais do que eles. Saem todos juntos, fantasmas e poucas carnes dando ao começo esperança de paisagens mais gentis.

A família Mau-Tempo carrega marcas que só esse sobrenome explica, desde as mudanças aos abandonos frequentes. Do pai Domingo, que tão depressa morreu com a corda no pescoço, ao filho João, que tendo lutado tanto em sobrevida só presenciou morto a revolução. Os exclusivos olhos azuis do avô causam mistérios que só o abuso de uma antepassada esclarece. Esse céu manchado com gritos vermelhos surge na neta, que trazendo as boas novas leva nome da santa do cadáver cheirando a rosa. Prenúncio da Revolução dos Cravos que abriria pétalas para a subversão dos lavradores. Florescida apenas na geração de Maria Adelaide, que trocando Mau-Tempo por Espada e desilusão por luta, tornou-se mulher.

O Dia dos Prodígios conta ao fechado povoado que Dom Sebastião não volta mais, se quiserem é aceitar que cobra salta e mula nessa terra mal tem dentes. Soldados são de carnes e vêm cantar a revolução, não fazem malabares nem trazem multidão. Nada muda sem disposição, falta rei, falta Salazar e não se sabe onde colocar tantos cravos. Foi então Macário aceito por Carminha e Branca feita deusa do tempo, quase liberta quase presa, escolheu não ter amante que a torne realeza.

Do furdunço e do tédio nascem mitos, que exibem mulheres Jesuínas que nascem Palhas e são fáceis de pegar fogo. Do padre que não esconde as vergonhas nasce Carminha que precisa esconder as origens. Da tradição dos homens invejosos e ignorantes nascem mulheres violadas. Do copo de boêmia tocam bandolins aos Mácarios não amados. Faltam flores, mas sobram sinais. Mula e Cobra que juntas conspiram contra o povoado de Vilamaninhos, entre voos e sorrisos. Nos sonhos dos moradores, avisam que a mudança não é milagre, animais livres depois de amarrados e assassinados é que são. Os filhos e noivo que a guerra leva e a morte que traz notícias tornam Esperancinha a mãe, e Parda a quase viúva.

Assim, precisando ser melhor contada, cada obra tem seus olhos. Sabendo cada par pelo que chorar. Tantos anos, nada resolvido. Mas isso só sabia Lídia Jorge que escreveu a obra em tempo maduro, seis primaveras depois da Revolução dos Cravos. Saramago, ainda no fogo que queimou tudo, inclusive ele, pintou de esperança a flor antes sangrada – que furou o coração dos trabalhadores que pelejavam mesmo sem armas. As duas são começo. O futuro a outras obras pertence.

Referências

JORGE, Lídia. O Dia dos Prodígios. Portugal: Dom Quixote, 2010.

SARAMAGO, José. Levantado do Chão. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

SECCO, Lincoln. A revolução dos Cravos. São Paulo: Alameda, 2004.


Maria Karina anda por ai querendo se saber, desfazendo Letras, provoc(am)ando gentes e pondo em tudo a vírgula que é pra imitar Clarice – de quem fez mãe sem nunca dela ter levado bronca. Taí uma mentira e vírgula. Para conhecer mais:

Tumblr: http://minhastardescomchaya.tumblr.com

Blog: https://estaesmaria.wordpress.com

 

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Realidade virtual é mato

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Texto de Danilo Malabrito

Confesso que desde a primeira vez que ouvi falar em “drones”, já aumentou bastante o meu medo do futuro. Talvez porque os conheci justamente em uma notícia que dizia serem usados em operações militares. Para matar pessoas. Confesso que agora já não sei nem o que é mais doído, a atrocidade em si ou a frieza ao escrever isso num texto.

É aquela coisa. A tecnologia é criada pro bem e o homem dá um jeito de pecá-la, ou é criada já pro pecado, e o homem acaba dando um jeito de usá-la pro bem? O ser humano é mau por natureza então corrompe a sociedade, ou nasce bom e é corrompido por ela? O biscoito é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho? Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Dúvidas que a gente leva pro túmulo.

Mas este texto não é sobre drones nem sobre desgraças nem sobre pecados. Hoje em dia tá na moda a VR: “Virtual Reality”. Realidade virtual, pra nós que usamos chinelos. A busca pela imitação da realidade, pensa só. Sei que os usos dessa inovação são inúmeros, maiores no entretenimento. Imitar a realidade pra se sentir mais vivo… Os dilemas da vida, né.

Claro, eu sei que é o andamento natural da tecnologia. Eu sei que é inevitável essas coisas. O progresso é um fato, tipo os drones. E as dúvidas. Não, não é que eu ache que os óculos de realidade virtual, por exemplo, vão ser usados por militares para matar pessoas. Se bem que sei lá também, a cada inovação, falta menos quilômetros pra chegar em White Bear (se você ainda não viu “Black Mirror”, para tudo e começa já!). Mas eu disse que o texto não era sobre pecados.

Mas e o Saramago? O Saramago tá aqui porque é autoridade no assunto desse texto. Esses dias tava lendo um livro de entrevistas com ele e sua esposa, a Pilar. Daí que um trecho lá me fez ficar pensando como é louco isso que a gente tem de querer imitar tudo, e desvendar tudo, e como isso é quase sempre de um jeito mais mecanizado, mais morto.  A gente quer entender o mundo às vezes de uma forma violenta com nossa humanidade. Tô falando do apagamento dos sonhos. Juro que não tenho nada contra o avanço tecnológico, é lógico. É só que quando penso nos rumos que a gente pode tomar…

No “Eu, Robô” (o livro, lá de 1950), tem uma frase assim: “De agora em diante, todos os conflitos humanos são evitáveis. Apenas as máquinas são inevitáveis”.

Mas o quanto a gente tem que se deletar pra abrir espaço pra máquina? A resposta é que.

Saramago. Tem um trecho da entrevista em que ele faz uma senhora revelação. O mestre em realidade virtual com as distopias de seus livros diz que essa tecnologia já existe há milênios, acredite ou não.

Com todo respeito às verdades que os homens procuram pra amaciar os pecados que cultivam, meu sonho favorito é um que eu saía gritando na rua “parem de assassinar mistérios!!!”. E eu nem sabia mais se acordava.

Costumo dizer que, depois de Deus, sonhar é o maior mistério que não precisa de resposta.

O sonho é uma espécie de realidade virtual. A realidade virtual não foi inventada ontem, o homem das cavernas já sabia o que era a realidade virtual… porque sonhava.

Portanto não me venham cá com histórias… Ai! a realidade virtual! Ui!… Isso é tão velho como o mundo.

Estamos a viver no sonho coisas como se elas existissem – estão dentro da nossa cabeça simplesmente. É como se viajássemos para dentro de nossa cabeça e vivêssemos aquilo que está lá.

Antes, não lhe podíamos chamar realidade virtual, porque o conceito não existia. Chamávamos-lhe apenas sonho.

E a verdade é que nós dormimos mas o cérebro não dorme. Portanto dos dados da experiência, da consciência e do que pode recordar, o cérebro organiza histórias.

O cérebro não dorme, aliás, nada dorme. O coração tampouco dorme, o sangue flui. Todas essas células, tudo isso, a bicharada que está dentro de nós não para.

O sangue tem de chegar ao cérebro, a toda a parte, e lá tem os seus caminhos, as suas comportas, os seus diques, os seus canais de comunicação. É assim, pá…

FONTE: MENDES, Miguel Gonçalvez. José e Pilar: conversas inéditas. São Paulo, Cia das Letras, 2012, p. 21.


Danilo Malabrito é um amigo do silêncio. Nunca sonha à noite e acorda tarde todo dia. Sua meta é não ter metas, apenas atravessar. Não acredita nos diplomas e gosta mais das coisas que não sabem virar assunto. Daí escreve poemas. Para conhecer mais:

Blog: http://malabrito.blogspot.com.br/