Sertão

Patativa do Assaré: Saudade é canto magoado

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Texto de Danilo Lago

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente

O suspiro da ausência rasga os ponteiros do relógio. É o que sinto ao ler esse verso parido no sertão do nordestino coração de Patativa do Assaré. Poesia que encabula os meus verbos, transformando os meus trincados suspiros em magoados sentimentos. É poesia feita com o silêncio do corpo calejado, debaixo do sol forte, a enxada pesando nos ombros, os joelhos rezando por chuva. É um grito contra a opressão do mundo dos homens e uma rasteira ao dos deuses. É a Saudade feita coisa.

Meu nordestino avô, Agnelo, se foi na semana passada, antes do combinado. Daí, meu suspiro de ausência. Ele adorava a poesia do Patativa do Assaré, embora nunca tivesse adquirido nenhum livro sequer do poeta. Conhecia as poesias de ouvido, pela força da tradição oral.

Pelejei pra conseguir encontrar o livro Ispinho e Fulô, até que encontrei um exemplar no sebo do messias, no centro de São Paulo. É difícil acreditar que pra conseguir qualquer livro de um dos poetas mais populares do Brasil é necessário enfrentar tamanha dificuldade.

Com o livro em punho, fui até a casa do meu avô. Passamos horas, ou as horas passaram, não sei direito, comungando daquelas poesias. Uma tarde inesquecível e inventada. Eu lhe disse que queria ser escritor, ele ficou me olhando, olhando, fechou os olhos e escapou algumas palavras:

– Escrever é um ofício bom, viu, apesar de ser uma peleja danada pra escolher as palavra. Tem que pensá muito antes de bota a palavra no papel. Você sabia que pra ser escritor tem que ter uma estrela no coração?

SAUDADE

Saudade dentro do peito

É qual fogo de monturo,

Por fora tudo perfeito,

Por dentro fazendo furo.

Há dor que mata a pessoa

Sem dó e sem piedade,

Porém não há dor que doa

Como a dor de uma saudade.

Saudade é um aperreio

Pra quem na vida gozou,

É um grande saco cheio

Daquilo que já passou.

Saudade é canto magoado

No coração de quem sente

É como a voz do passado

Ecoando no presente.

A saudade é jardineira

Que planta em peito qualquer

Quando ela planta cegueira

No coração da mulher,

Fica tal qual a frieira

Quanto mais coça mais quer.

Fonte: ASSARÉ, Patativa. Ispinho e Fulô. São Paulo. Hedra, 2005.


Danilo Lago é aspirante na teologia e pescador na literatura. Sabe que é mais fácil começar uma briga do que um texto. Para conhecer mais:

Página: https://www.facebook.com/cronicacinzenta/?fref=ts

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